Eu não sou eu, nem sou o outro

Ontem durante a ceia de Natal, eu estava sentado de frente para o espelho. Conversávamos, comentávamos, riamos. Por fora, e por dentro de mim imperava uma miséria, miséria de terra seca, de sertão. Não é culpa da música nordestina que agora ouço mais. É culpa da vida mesmo, dessa coisa variada que nos consome, disfarçada de nossa, quando somos nós que a ela pertencemos.

De relance, olhei o espelho. Não me vi. Do contrário, vi por um instante, com nitidez e clareza, a imagem de meu pai. Mais do que a cabeça nua, a barba se desfez para fazer-nos iguais. Foi um instante, um relâmpago: quando olhei de novo, o espelho mostrava-me apenas eu mesmo.
Não sei o significado disso. Penso que não posso saber.
Quem sabe explicar o que o espelho lhe reflete?
Afora todas as psicanálises, todos os psicologismos, todos os bares das esquinas, há explicação?
Por um instante no espelho não me vi.
Por um instante, meu reflexo era meu pai.
Sei lá se por efeito divino, alcoólico, inconsciente ou meramente oftalmológico, em meu lugar, no espelho, me olhava meu pai.
Desfeita a miragem, vi que a todos os meus problemas, a toda a dor que ocupa meu peito, que pesa, que aprofunda, acrescentou-se mais uma: nem no espelho eu era eu.

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