Vá e não peques mais

No último momento do ritual católico da confissão, o padre se volta ao confessante e diz: “Eu te absolvo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Vá e não peques mais.” Qual o significado disso? Muita coisa. Vamos um pouco a eles.


Na cerimônia da confissão, o fiel está pedindo a Deus perdão por ter pecado. Não vou entrar no mérito do “se é perdão a Deus, então por que tenho que falar com o padre?”, essa não é, nem passa perto de ser, a cerne deste post.
O que eu quero abordar aqui é a questão do perdão, da desculpa.
Quem pode pedir perdão? Oras, essa é fácil: quem errou. Só quem errou (e admite que o fez) pode pedir desculpas. Mais do que isso, o errado precisa estar arrependido para poder pedir perdão. Esse é o ponto chave da confissão: errar, admitir o erro e dele se arrepender. Lembra quando você era criança pequena sabe deus lá aonde, e brigava com seu irmãozinho/primo/vizinho? Aí vinha a sua mãe e o obrigava a pedir desculpas e “fazer as pases”? Aí, sob o risco de tomar alguns safanões, você ia lá e pedia, não é? Mães mais coercitivas e perversas obrigavam até a um aperto de mãos ou abraço. Perceba que essas desculpas não são verdadeiras (ou sinceras, pra ficar no óbvio): no mais das vezes, você queria mesmo é que aquele irmão/primo/vizinho entrasse em combustão espontânea, e mais ainda por ter te dedado para sua mãe. Aquelas desculpas, aquele aperto de mão ou abraço não representam nada. Você não estava arrependido e, mais das vezes, sequer admitia que esteve errado.
Mas o ritual católico ainda acrescenta um detalhe “tenso”: o padre encerra com um “vá e não peques mais”. Segundo a tradição, a palavra “pecar” tem origem no grego, e quer dizer “errar o alvo”. É como se pecar quisesse dizer: “eu queria fazer algo bacana, mas vacilei e deu merda”. Quando o padre diz essas palavras, ele marca um dos pontos mais importantes e fodas pra mim na confissão. Se já era preciso que você tivesse errado, admitisse o erro, estivesse arrependido dele (tudo no passado), a ritualística católica acrescenta um desejo futuro: não cometer mais aquele erro.
E tem todo um óbvio sentido, né? Qual a razão do meu arrependimento, qual a profundidade dele, se eu pretendo, quando o padre virar as costas, fazer tudo de novo? Ou se, tirante esse fardo deliberado, eu sequer me comprometesse a ter mais cuidado para não repetir o erro? Que droga de arrependimento é esse que simplesmente diz: “Beleza, tô limpo. Azar se acontecer de novo?”. Compromisso e atenção são as palavras aqui. É necessário que eu não queira mais errar para poder ser genuinamente perdoado.
Agora, vamos pensar um caso extremo. Pense numa mulher metropolitana contemporânea. mentalmente sadia. Recém-divorciada, dois filhos (um ainda de colo), vive de jornada dupla (trabalho, afazeres domésticos). Ela não tem muito tempo para cuidar de si mesma. Todos os dias, acorda cedo, dá café às crianças, prepara as lancheiras e leva-as à escola, para então seguir para o trabalho, onde ficará até o início da tarde, quando repete o processo em sentido inverso.
Num dia como qualquer outro, ela acordou cedo, fez o desjejum, deixou o menino mais velho na escola e rumou para o trabalho. Ao fim da tarde, quando entrou em seu carro, o horror: na cadeirinha, jazia, morta de inanição, a criança mais nova.
Todo mundo conhece a história. Já aconteceu mais de uma vez.
Acho também que não preciso frisar o caráter de erro da situação. De fatalidade. Acho que nem o psicanalista mais xiita (e, portanto, babaca) vai afirmar algum caráter deliberado nisso. Um erro.
A pobre senhora, com a vida psíquica em frangalhos, há de carregar a culpa por aquela fatalidade. Obviamente, ninguém precisa dizer isso, ela está arrependida. Cometeu um erro, admitiu-o, arrependeu-se e, se o perdão dos homens (na forma da Justiça) não lhe traz conforto, talvez procure o perdão divino. Mas, o arrependimento e o perdão, por mais reconfortantes que pretendam ser, não trazem a criança de volta. Não há remendo que baste.
Mas todo esse perdão, divino ou humano, só tem sentido por dois fatores: 1) o arrependimento afirma que ela não queria cometer o erro que cometeu. 2) Por não ter querido fazer numa primeira vez, é óbvio que ela não vai repetir o erro, nem intecionalmente, mas que também se esforçará para que ele não se repita acidentalmente. É uma questão muito diferente desta aqui, por exemplo.

Mas o erro não tem reparação. Nenhum erro tem, nenhum erro pode ser verdadeiramente “consertado”, pelo menos não quando se trata de errar com pessoas.
Porém, como diz Sérgio Sampaio, se não somos Deus nem Senhores, então como (e porque) perdoamos? Por conta daquilo que eu já disse: a gente confia que a pessoa não quis sacanear, e, se não quis, não vai querer fazê-lo no futuro.
Por isso a gente não perdoa quem age na sacanagem. Quem faz pra machucar, querendo machucar. Não tem perdão.

Mas e quem erra sempre? Quem comete o mesmo erro sempre? Que sai antes do padre dizer “… e não peques mais”? Há perdão? Há perdão para quem diz: “não é minha culpa” mas não tem atenção, ou cuidado, para não cair no mesmo erro? Há como perdoar quem você sabe que vai repetir o erro? Eu não sei. “Só sinto no ar o momento em que o copo está cheio e que já não dá mais prá engolir“¹…

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