"O Clube do Filme", divórcio e relações de pais e filhos

Semana retrasada, com vistas a dar uma enxugada na minha pilha de livros para ler, peguei um dos menorzinhos que estava por lá: “O Clube do Filme”, de David Gilmour (não, não é o cara do Pink Floyd).

“O Clube do Filme” conta uma história inusitada (e real) David é um crítico de cinema desempregado. Divorciado, pai de um filho de 15 anos que vem morar com ele. O problema? O garoto está como prego no angu no que tange à escola. As notas e o interesse afundando, a ponto de o pai não saber o que fazer. Aí ele (o pai) propõe o inusitado do inusitado: o filho (Jesse) pode abandonar a escola, desde que cumpra duas “obrigações”: 1) Não se envolver com drogas e 2) por semana, assistir junto do pai três filmes, e discuti-los. É isso. Simples assim, o livro conta três anos na vida dessa dupla, sendo que acaba que os filmes viram pano de fundo. A figura passa a ser a relação entre David, seu filho Jesse e o amadurecimento de ambos.
Como eu já disse anteriormente (e em outros lugares), “O Clube do Filme” não é um livro que vai mudar a sua vida. Provavelmente vai passar perto disso, dependendo do caso (o meu) mas vale muito a pena a leitura. É leve, é estranho às vezes, mas é uma história muito legal. E imagine que foi um tiro no escuro absurdamente temerário por parte do pai (e ele sempre teme que tenha tomado a decisão errada). Você vai ficar curioso pra saber o rumo que a coisa vai tomar.
Enfim, mas o que eu quero enfatizar nesse texto não é a decisão que David toma, ou as consequências diretas dela no “rendimento escolar” de Jesse. Tampouco os filmes (e as críticas a estes filmes) que eles assistem. Quero falar dum “ganho secundário” o qual, eu arrisco, seja a razão do sucesso que o livro vem fazendo. Quero falar da relação que se constrói entre pai e filho.
Veja bem, David e Maggie, os pais de Jesse, são divorciados. Ele um crítico de cinema, ela uma atriz de teatro. Essa questão das profissões é importante, porque caracteriza que tipo de pessoa (ou de mentalidade) eles têm. São um casal liberal, “moderno”. No inicinho da trama, somos informados que David vive com a atual esposa (Tina, uma jornalista) num loft, enquanto Jesse e a mãe vivem numa casa mais ampla. Mas a “trama” efetivamente começa quando David e Tina trocam de residência com Maggie: ela vai para o loft, eles vão para a casa, tudo isso com o objetivo de que o adolescente Jesse possa conviver com o pai. Viu o quanto eles são mudernos? Durante a narrativa, David vai várias vezes à casa da ex-mulher para jantar, numa nice. Eita, se todo mundo fosse assim…
Mas a leitura do livro (que, como eu disse, é muito mais sobre a relação pai/filho) me deu alguma inveja. Bem, lá se vão dezesseis anos que meus pais se separaram. Teve aquela fase pós-divórcio, imediata, do mundo das nuvens (pai e mãe, cada um de seu canto, se desdobrando para paparicar mais os filhos), teve a fase da revolta, que foi seguida pela fase do afastamento, e hoje vivemos a fase do “Ok, somos adultos. Vamos viver como tal”.
Mas, nessas fases todas, eu nunca tive o meu pai. De certa forma a gente está junto, e hoje nos relacionamos muito bem, mas o processo todo fez com que eu o perdesse.
Obviamente não como se perde um parente ou amigo que morre. Meu pai está vivo. Mas “perder” no sentido de não ter em casa, de não se encontrar quando chega do trabalho, por exemplo. “Naquela mesa está faltando dele”, diz uma música do Nelson Gonçalves.
O convívio (arquitetado) que Jesse tem com o pai, justamente na adolescência, é aquilo que me faltou. Meu pai não estava exatamente presente quando minha avó morreu, quando arrumei minha primeira namorada (ou a segunda, tampouco a terceira), ou quando passei no vestibular. O divórcio, os lares separados, fatalmente impõe-nos uma barreira que não será quebrada nunca mais. De um jeito triste, constato que os enteados de meu pai tiveram-no muito mais do que eu.
Mas, de alguma forma, isso não é culpa de ninguém. É o curso estranho da vida, das escolhas que fazemos numa hora e cujas conseqüências só nos daremos conta muito, mas muito tempo depois, num período além de qualquer arrependimento.
A vida tem dessas coisas, mas nunca deixa de ter razão.
Agora, há uma nova situação. Ou uma velha situação se repetindo ao alcance dos olhos.
Eu sempre fui bastante próximo da família da Raquel. Próximo ao ponto de me sentir plenamente confortável de ir à casa dos avós dela… Sem ela! Pois é.
E há, particularmente um tio-torto (as pessoas ainda usam este termo? Conseguem entender o que quero dizer quando o utilizo?) que sempre me tratou muitíssimo bem, desde o primeiro momento, de modo que nutro por ele grande respeito e carinho. Além disso, quando comecei a namorar com a Raquel, esse tio-torto e a tia sua esposa tinham três filhos pequenos, tendo o mais velho uns 8 anos na época. Tanto me afeiçoei pelos tampinhas quanto eles por mim, e isso continua (no último domingo arrumamos uma zona num churrasco de família, subindo em árvores para pegar amoras e jamelão).
Mas… Os pais se separaram. A notícia me pegou de surpresa e me chateou um bocado, não nego. E o pai (ex-tio torto) foi-se embora, arranjou outra mulher, e muito provavelmente jamais seria visto.
Quando fui fazer a prova do ENADE, recentemente, encontrei com o ex-Tio-torto trabalhando de fiscal de corredor. Conversamos um papo rápido, como quem mata saudades curtas, perguntas sobre família, como-vão-as-coisas e tal. Caminhando em direção à minha sala, notei que ele se emocionara. Nos despedimos e fui fazer a prova.
A Raquel já tinha me contado que os três garotos estavam reagindo de maneiras diversas à situação. O mais novo, aparentemente ignorando o grosso da situação. Vai, passa os fins de semana com o pai, depois volta para casa. O do meio, está um pouco dividido. Ora vai à casa do pai, ora não quer ir. Já o mais velho, hoje com seus quinze anos, simplesmente não quer saber. Assumiu novas responsabilidades no cuidado dos irmãos mais novos e segue a vida, tendo um alvo claro para toda a sua revolta adolescente. Quando comentei com ele que havia encontrado com seu pai, a resposta transpareceu toda essa raiva.
Veja bem, eu o entendo. Passei por isso. Ninguém gosta de ser deixado, de ver alguém de quem se gosta muito ser trocada por outra pessoa que não nos diz nada. Na exata idade dele, eu também queria que o chão engolisse o meu pai.
Mas ouvindo o garoto falar naquela mal dissimulada raiva, eu pude ver exatamente o que se dava. Um adolescente, começando a cobrar (e realmente ser cobrado) do mundo, crescendo, descobrindo coisas e de quem simplesmente se tira a referência. Ou melhor: a referência o sacaneia e vai embora (não tô dizendo que divorciar e arrumar outra mulher é sacanagem. Não do ponto de vista de quem o faz. Mas e de quem fica?). De repente a vida está toda ao contrário e alguém precisa levar a culpa (que é de ninguém).
Este texto, acredito, deixa óbvio que tudo isso me tocou. Mas a verdade é que não fiz nada. Diante daquilo tudo, projetei na mente um futuro que talvez repita o meu nos pontos chave, cheio de vitórias comemoradas pela metade, cheio de momentos de solidão porque faltava uma pessoa. Pensei que talvez eu pudesse ajudar, dizer de como eu entendo aquilo tudo, sei como é ruim, e que escolhi o caminho que não dá exatamente certo.
Mas aquela raiva, acreditem, é necessária. É passando por ela que a gente uma hora se percebe do outro lado da história, magoando outra pessoa, e se dá conta que aquela raiva toda, meio surda, só existe porque, de verdade mesmo, não existe ninguém que mereça levar a culpa de nada. Mas não há quem nos possa ensinar isso. Já dizia Kierkegaard: nas teorizações sobre a vida, é a vida mesma que se perde.
Só espero que o garoto gaste menos tempo do que eu gastei pra perceber tudo.
E aproveite melhor que eu o pouquinho de pai que ainda se pode ter depois de um divórcio.

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