tenho tido muita coisa/menos a felicidade”
E me deu uma vontade grande de chorar, uma saudade doída que volta agora e me obriga a respirar fundo antes de concluir cada linha.
Eu fico triste que muita gente que eu conheço hoje, muita gente de quem gosto muito, a Raquel por exemplo, nunca conheceram minha avó. E em certa medida, minha avó nunca me conheceu. Esse Lucas Ed. de hoje, policial civil, quase psicólogo, que tomou tantas decisões erradas na vida e acertou em tantas outras, a minha avó não conheceu.
Acho que o que sobra dos mortos, essa saudade infinita, esse aperto no peito onze anos depois como se fosse ontem, é a mais pura manifestação da saudade mesmo: aquela falta, que só é falta porque a pessoa vive dentro da gente, estando morta do lado de fora. E daí não importa. A memória faz do mortal imortal.
Pesa sobre a lembrança de minha avó o pulso firme de matriarca, o cheiro de pé-de-moleque feito na pedra da pia da cozinha, o parque e a brasília todo domingo, o Mineirão, os jogos do Cruzeiro, a roupa de Tia Nastácia em festa de folclore. Pesa a margarina e as maçãs congeladas no freezer para durarem mais, pesa o carinho, pesa o respeito. Pesa a cor. Tudo batido no liquidificador ganha cores de saudade.
Algum tempo depois que minha avó morreu, meu avô cortou as árvores frutíferas do quintal da casa. Eu fiquei triste, bravo, mas agora entendo o gesto: aquelas árvores todas, aquelas mangueiras que tantas vezes eu subi nos galhos junto com D. Celita eram como que fotos dela, imagens ao alcance dos olhos, indicativos perpétuos, enormes, verdejantes daquela ausência que doía (e dói) em todo mundo, nele também. Por mais que o Seu Raymundo seja forte, ativo e aparentemente descomprometido de tudo, é ele quem mais precisa falar dela, dizer como ela estaria hoje, com os netos grandes, bisneto chegando, internet, celular. Talvez eu tivesse mandado cortar também as árvores, vender a brasília, proibir a entrada de pé-de-moleque na casa. Cortaria as coisas que o Rubem Alves chama “sacramentos”: sinais visíveis de algo (ou alguém) invisível. Quem quer ser sempre lembrado de que está incompleto? De que lhe falta algo vital, insubstituível?
Me falta. Vê? A saudade é narcísica: me falta. A ela, a Dona Maria da Luz Barbosa, dita Celita, não falta nada. E eu não digo no sentido de que ela está “vivendo” num paraíso celeste: a própria nulidade da morte é plena, não tem fome, não tem neto sendo assaltado, filho trabalhando em cidade distante, casa arrombada por ladrões.
Ah, mas “saudade” é palavra triste. E pra fechar, que eu já cansei de chorar, parar, repirar, escrever mais um pouco e chorar de novo, encerro com Luiz Gonzaga³:
O amor que a gente um dia perdeu
Saudade inté que assim é bom
Pro cabra se convencer que é feliz sem saber
Pois não sofreu
Porém se a gente vive a sonhar
Com alguém que se deseja rever
Saudade, entonce aí é ruim
Eu tiro isso por mim, que vivo doido a sofrer
Ai quem me dera voltar pros braços do meu xodó
Saudade assim faz roer e amarga qui nem jiló
Mas ninguém pode dizer que me viu triste a chorar
Saudade, o meu remédio é cantar (2x)
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¹A foto do post: para minha tristeza, acho que não existe foto minha com minha avó, ao menos não aqui em casa – e olha que eu já revirei. Daí, coloco a foto da atriz Jacyra Sampaio como Tia Nastácia do seriado do Sítio do Pica-Pau Amarelo de 1977, pois numa festa do folclore que rolou aqui na paróquia uma vez, minha avó se vestiu como a personagem, e ficou idêntica.
² “Hoje, não sei porque…” mentira. Minha avó sempre fez muito biscoito frito.
³ A música é um clássico, chama-se “Qui nem jiló” e ficou famosa na voz de Elba Ramalho. É uma composição de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.









