Você já viu aqui que eu ando muito ocupado ultimamente. Pois então, acho uma boa hora pra começar a falar destas ocupações, a começar pelo estágio.
Assim, cabe dizer estou estagiando dentro da própria UFMG, num núcleo de Psicanálise e Educação chamado NIPSE, coordenado pela fodônica Ana Lydia Santiago, psicanalista lacaniana (tá, ignore as categorias caso você não entenda. Só saiba que a mulher é foda e trabalha numa área foda. Simples). O programa que ela está tocando chama-se P33, e é ligado à secretaria de educação municipal. Consiste em uma série de intervenções nas 33 piores escolas municipais de BHCity, objetivando melhorar a situação das mesmas. Ok? Pronto, você está inteirado do assunto.
Aí começam os problemas: as intervenções são preparadas através de conversas coletivas iniciais, com professores, alunos e demais envolvidos chamadas, metodologicamente, de “conversações”. Ao fim da intervenção naquela escola, é preciso que se compare o presente e o passado e, para tanto, as conversações iniciais são gravadas e transcritas por estagiários (Alô mamãe!). Bem, transcrever fita é um porre. Como a maioria das conversações são feitas na parte da tarde (horário em que eu estou estudando na faculdade) eu não posso tomar parte delas, ficando só com o trabalho de transcrever as gravações (já falei que é um porre?). Então visualize: 60min de conversa, com 8, 10 professoras. Se não é, devia virar modalidade de punição no Inferno de Dante. Na verdade, mais irritante que a atividade em si é o fato desestimulante de que qualquer pessoa que seja alfabetizada e não seja surda pode fazer isso. Não precisa nem ter estudado além da quarta série.
Mas relevemos. O trabalho é mais chato porque eu só posso me dedicar à parte mais acéfala do processo, ao menos por ora.
Entretanto, há um segundo problema. Obviamente, as 33 escolas são situadas em áreas social/economicamente desfavorecidas: as favelas e aglomerados. Lugares de muita violência e miséria, onde os homicídios e congêneres são lugar comum. Ou seja, são lugares em que meu alter-ego heróico, o Detetive Lucas Eduardo, vai constantemente, chafurdando sangue e lama em busca de culpados.
Você consegue perceber a implicação desta dicotomia? É seguro que durante o dia, entre numa escola com intenções puramente acadêmicas um sujeito que, de noite, irá lá atrás de homicidas? E quando pergunto se é seguro não me refiro à minha segurança (ela foi pro espaço quando topei essa profissão, recebi porte de arma e “distintivo”), mas à segurança dos demais envolvidos no projeto.
O fato é que isso tem me tirado o sono, a paz e a vontade de trabalhar. Veja bem: é um estágio importante pra fazer parte, é um enfoque inusitado (ao menos pra mim) numa área que eu gosto com uma coordenadora foda! É a chance de ver a teoria acontecer, de postular, de pensar novos usos pras coisas que não os que se aprende em sala de aula (no caso, ver a psicanálise fora da intervenção clínica)! Mas a verdade é que me falta a forma correta de chegar e explicar a situação.
Daí o desinteresse toma conta (pra quê entrar de cabeça se, ao saber da minha situação, é imensa a probabilidade d’eu ser chutado?) e transcrever as conversas fica insuportável. Pra se ter idéia, para cada meia hora sentado à frente do Sound Forge+Word, eu “descanso” quase três!
É dose.



















