“Vale, vale tudo! Vale o que vier, vale o que quiser, só não vale cobra com cobra, nem amassar bombril!”
Desde que fiquei sabendo do lançamento de tal livro, que oportunamente ganhou as lojas às vésperas de se completar dez anos da morte do Rei do Soul brasileiro, me animei. Gostava (e gosto) do gordo, de seus clássicos, como a própria “Vale Tudo”, “Do Leme ao Pontal”, “Cristina”, “Padre Cícero” e muitas outras. Mas estou pra lhe dizer: a leitura foi frustrante em pelo menos dois aspectos, sendo que um deles se divide em vários.
O primeiro, diz respeito ao próprio objeto da biografia, o Sr. Sebastião Rodrigues Maia, o velho Tim Maia do Brasil. O que nem seu amigo Nelson Motta disfarça (e olha que ele tenta, pintando tudo com cores mais alegres) é que o Rei do Soul era pessoa das mais insuportáveis. Egocêntrico, presunçoso, irresponsável e mau pagador. Por agüenta-lo, agora até vejo o pessoal da Vitória Régia, banda que acompanhava o cantor, com melhores olhos. Afinal de contas, Tim Maia era a versão Momo do estrelismo. Não pagava compositores e músicos em dia, protelava todas as dívidas. Faltava a shows, enchia a cara de pó e erva a ponto de não conseguir levantar da cadeira, tratava a tudo e a todos da forma mais passional possível: se ele gostasse de você, maravilha. Se não…
Claro, o homem tinha o que chamava atenção. O gênio detestável não impede, em nenhum minuto, que eu continue gostando de seu som eterno, do gingado, das letras (bobas, na maioria) da voz trovejante. Mas essas mesmas músicas não impedem que me lembre dessa insuportabilidade do sujeito. Além disso, é preciso dizer que a história dele foi bastante rica, afinal, quantos do círculo próximo de amizade dele se tornaram músicos tão bons quanto? Erasmo Carlos foi seu amigo desde a mais tenra infância. Jorge Ben batia uma bolinha com a sua turma, e teria gerado em Tim um certo ciúmes, por ambos usarem o mesmo nome artístico, “Babulina”. Roberto Carlos teve o desprazer de ser expulso do grupo musical de Tim, pelo próprio, onde também constava Erasmo. Flávio Silvino (o Severino Quebra-Galho, daquele humorístico deplorável) também dividira o palco com o (então jovem) Tião Maia. Não há como ignorar toda essa história riquíssima, mas também não se evita o repúdio à essa personalidade doentia. Não dá.
Outro ponto que frustra a leitura, diz respeito ao outro homem envolvido: o autor, Nelson Motta. Se como produtor ele é bom de serviço (trabalhou com Elis, lançou Ed Motta), como biógrafo ele ainda tem muito chão pra pisar. O livro sofre de erros simples de serem corrigidos por um editor comprometido e outros que só dariam certo se na mão de outro autor. Na categoria dos erros simples, há os desvios cronológicos, quando o autor conta, por exemplo, em duas passagens diferentes sobre um mesmo processo judicial que Tim sofria. É o mesmo processo, nenhuma informação nova se acrescenta e você se pergunta se está tendo um deja vu literário. Alie a isto o fato de que o livro é “dividido” em pequenos períodos cronológicos, já que, de tempos em tempos surge uma foto de página inteira com um ano e uma frase, como legenda. Entretanto, o texto não acompanha o período que é mostrado pelas fotos em muitos momentos, gerando uma chateação dos diabos. Outro ponto, um bom editor corrigiria algumas “liberdades poéticas” que o velho Nelson Motta toma. Por exemplo, ao descrever um inusitado show no Circo Voador, em que Tim Maia dividira a casa com o Molotov, banda de rock pesado, lá nos anos 90, diz Nelson Motta, mais ou menos assim: a casa se dividia entre os cabeludos, carecas e cheios de piercings do rock e as roupas coloridas dos funkeiros, com suas cachorras e popozudas. Percebe a importância do meu grifo? Tim Maia fazia funk, na linha direta de James Brown, Little Richard e cia. Nada de CACHORRAS e POPOZUDAS! Esse tipo de personagem contemporânea é cria do funk carioca, nascido do chamado “Miami pancadão”, e não tem nada a ver (ritmicamente e cronologicamente) com o trabalho do velho Maia, estando mais próximo do “gangsta rap” de 50 Cent e Snoop Dogg. Bola fora 1, Nelson Motta! Outra bola pro mato surge quando Nelson vai contar da gravação de “Chocolate” por Marisa Monte. O ano é 92-93, salvo engano. Aí, diz o Sr. Motta, mais ou menos assim: na verdade a música não fazia parte do CD de Marisa, era uma faixa extra gravada para o DVD ao vivo. Sacou? Hein? DVD em 1992, Seu Nelson Motta? Bola fora 2, isso sim!
Mas como eu disse anteriormente, há derrapadas no livro que só sendo outro escritor para evitá-las, já que se tratam de pontos importantes e que são mal abordados. Por exemplo, lá pelas tantas o autor nos conta que Tim Maia escreveu o clássico “Réu Confesso” para uma sua amada, cujo nome agora me foge. Entretanto, certa feita, uma enfermeira processa o Tião Maia, afirmando ser a autora da canção. Puto, Tim deixa de cantar o hit, pra não pagar direitos autorais à mulher, que os obtem pelo fato de que Sebastião não comparece às audiências. Mas afinal: a música era da enfermeira ou não? Faltou que o senhor Motta batesse o martelo, dizendo que sim ou que não. Coisa que ele se abstém de fazer. Será porque não sabia? Outra passagem nebulosa diz respeito à controversa fase em que Tim esteve envolvido com a Cientologia made in Brazil, ou seja, a Cultura Racional. Não só Nelson Motta, mas os noticiários e programas de Tv da época mostram Tim Maia como um fiel comprometido e sincero, que largou tudo em prol de uma luz na vida. Mas todos sabemos que Tim Maia e a Cultura Racional não continuaram juntos por muito tempo, o velho Maia rompeu com tudo, xingou Deus e todo mundo que era envolvido com a tal Cultura, chamando de picareta pra baixo o “mestre” da ordem. Isso todo mundo sabe. Mas como isso se deu? O que lhe deu o insigth que fez romper com tudo? Eu não sei, e Nelson Motta tenta nos empurrar güela abaixo que um dia Tim Maia acordou com a pá virada e decidiu mandar tudo às favas. Mas estava tão comprometido, tão convertido…
Por fim, uma coisa que eu me lembro que aconteceu, à época, e que Nelson Motta sequer se dignou a citar (talvez pra não sujar pro seu lado): quando Ed Motta começou na carreira artística, encontrou forte resistência por parte do tio. Tim não bicava muito o sobrinho e, porralouca como era, costumava deixar isso bem claro: todo mundo sabia do desafeto na época. Mas Nelson Motta ignora o fato e, talvez por ter sido produtor do Ed, diz que Tim adorava o trabalho do sobrinho. Engraçado que com as pessoas que conversei, todas se lembravam dessa rusga…
Meu veredito final é que o livro, talvez pela combinação explosiva de um “objeto de estudo” antipático apesar dos esforços do autor, e também pelo pouco talento e esmero do último, o livro não passa de mediano. Some a isto o preço alto (estava girando em torno dos R$50 mangos, apesar de que, vi agora, está em promoção no Submarino), e eu te diria pra ler o livro só emprestado. Mas, naturalmente, esta é somente e apenas a minha opinião…
Motta, Nelson. Vale Tudo, O som e a fúria de Tim Maia. Ed. Objetiva.
Nota: 2,5 Oinc’s! 





