
Coisa que me pego pensando muito é sobre dinheiro. Não sei se isso é normal em todas as pessoas, mas eu penso bastante nesses papéis e metaizinhos (mais nos papéis). Sobretudo agora, com a batida do Madruguinha e a salgadíssima conta do conserto. Na verdade, de uns tempos para cá tem me incomodado de sobremaneira o meu descontrole com dinheiro, imensa incapacidade de economizá-lo e gastar com racionalidade. Ontem então, voltando
a pé da casa da Raquel, lembrei do Tio Patinhas. Sim, Scrooge McDuck, o pato mais rico de Patópolis e sua famigerada (e desejada) Moedinha Nº1.
A história creio que todo mundo conhece. Vindo de uma infância humilde, Patinhas economizou cada tostão que conseguiu, à partir de uma única moedinha, que guarda consigo até hoje, como medalhão da sorte (a Maga Patalógica, inclusive, vive tentando roubar esta moeda justamente por seus poderes sobrenaturais). Vale dizer que Scrooge McDuck (o Tio Patinhas) foi inspirado em Ebenezer Scrooge, o rico sovina de “Um conto de Natal”, de Charles Dickens.
Mas o que eu fico pensando é que, na verdade, ou o Tio Patinhas é um criminoso enganador, ou um modelo de administrador financeiro pra lá de ultrapassado, e que sua moedinha #1 não é nada, não serve de nada e não tem poder algum.
Porque, o que quero saber é: qual o papel ocupado pela moedinha número 1 na fortuna do velho Patinhas? Nenhuma! Se ela está lá até hoje, numa almofada e sob uma redoma de vidro, é sinal de que nunca foi usada. O Patinhas a ganhou ainda na Escócia, trabalhando como engraxate. Ganhou e socou no cofre. Ela nunca foi investida, nunca se multiplicou em mais dinheiro. Naquela parábola bíblica dos talentos (começa no versículo 14), o empregado que não investe a moeda dada pelo patrão é punido.
Na verdade, o Patinhas McPato, sujeito cuja mentalidade foi formada nos primeiros anos do séc. XX, é um administrador bastante ultrapassado, cujo modo de enriquecimento se baseia apenas na acumulação de bens. Ele é como nossos avós, que guardavam dinheiro embaixo do colchão. A sorte do Patinhas é que o dólar não muda. É a mesma moeda desde que o EEUU se entendem (?) por gente. Se o velho pato sovina fosse brasileiro, estava financeiramente perdido, mas pelo menos seria mais lógico conservar a moeda como troféu!
No Brasil, Patinhas só teria sucesso financeiro com esse método se sua moedinha viesse acompanhada de muitas, muitas outras.
E o Roberto Justus, que adora empreendedores, jamais seria sócio dele…
Por curiosidade, um trecho da Wikipédia, do verbete sobre nosso amado Patinhas McPato:
Barks faz uma defesa aberta do capitalismo e a denúncia de todo sistema político que “tenta fazer a todos exatamente iguais”, que é a filosofia marxista da igualdade em todas as coisas. A igualdade sob a lei é boa, mas a igualdade real na riqueza ou na natureza simplesmente não funciona. Patinhas ao mesmo tempo é moralmente justo e explora as pessoas (tais como seu sobrinho Donald, a 30 centavos por hora) para acumular sua fortuna. Patinhas McPatinhas é um capitalista nobre, da forma como Barks o concebeu. Outros quadrinistas geralmente não capturam os nuances da moralidade e da ética de Patinhas.
Importante dizer, para aqueles que não sabem, que esse Barks citado é Carl Barks, criador e mais importante artista na história do velho Patinhas…