Arquivo para Setembro, 2007

A maçã

Postado em Raul, solidão em 29 Setembro, 2007 por Lucas Ed.

Raul Seixas e Paulo Coelho

Se esse amor
Ficar entre nós dois
Vai ser tão pobre amor
Vai se gastar…

Se eu te amo e tu me amas
Um amor a dois profana
O amor de todos os mortais
Porque quem gosta de maçã
Irá gostar de todas
Porque todas são iguais…

Se eu te amo e tu me amas
E outro vem quando tu chamas
Como poderei te condenar
Infinita tua beleza
Como podes ficar presa
Que nem santa no altar…

Quando eu te escolhi
Para morar junto de mim
Eu quis ser tua alma
Ter seu corpo, tudo enfim
Mas compreendi
Que além de dois existem mais…

Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro mas eu vou te libertar
O que é que eu quero
Se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar…

Quando eu te escolhi
Para morar junto de mim
Eu quis ser tua alma
Ter seu corpo, tudo enfim
Mas compreendi
Que além de dois existem mais…

Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro mas eu vou te libertar
O que é que eu quero
Se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar…

Nota Suína: Primeiro, a ilustra: é do Galvão, profissional do traço. Segundo, a letra: é forte, bate mais do que eu gostaria, mas resume, nuns dois versos, o que eu sinto de ruim.

Poema em linha reta

Postado em Fernando Pessoa, solidão em 29 Setembro, 2007 por Lucas Ed.

Álvaro de Campos
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Nota Suína: A ilustração, belíssima como sempre, é do não menos que foda Márcio Hum, também conhecido como Corsário. O Cara simplesmente arrebenta com um lápis nas mãos.

"Eu sei é tudo sem sentido…"

Postado em Letra de música, solidão em 27 Setembro, 2007 por Lucas Ed.
Andrea Doria
Renato Russo

Às vezes parecia que, de tanto acreditar
Em tudo que achávamos tão certo,
Teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais:
Faríamos floresta do deserto
E diamantes de pedaços de vidro.
Mas percebo agora
Que o teu sorriso
Vem diferente,
Quase parecendo te ferir.
Não queria te ver assim -
Quero a tua força como era antes.
O que tens é só teu
E de nada vale fugir
E não sentir mais nada.
Às vezes parecia que era só improvisar
E o mundo então seria um livro aberto,
Até chegar o dia em que tentamos ter demais,
Vendendo fácil o que não tinha preço.
Eu sei – é tudo sem sentido.
Quero ter alguém com quem conversar,
Alguém que depois não use o que eu disse
Contra mim.
Nada mais vai me ferir.
É que eu já me acostumei
Com a estrada errada que eu segui
E com a minha própria lei.
Tenho o que ficou
E tenho sorte até demais,
como sei que tens também…

Nota Suína: Ilustração retirada do fotolog do ótimo Ale Carvalho.

Gonçalo M. Tavares

Postado em Gonçalo M. Tavares, Poesia em 18 Setembro, 2007 por Lucas Ed.

É difícil ser inteligente no meio deste corpo.
É braços para um lado,
pernas para outro.
Os olhos a verem uma data de coisas.
Milhentos ruídos à volta das orelhas.
Depois ainda os cheiros
e o pior de tudo: os corpos, os outros corpos!
Uns a meterem nojo,
outros a seduzirem.
É muito difícil ser inteligente com tanta moça bonita
a passar.
É pedi muito.
O desejo não se desliga como a luz do quarto.
Era bom era, mas não é assim.
Como é que se pode ser inteligente com as mulheres
a insitirem naquele modo sedutor de existir?
É impossível, caros colegas, é impossível!

E depois há mais coisas.
O corpo é um reservatório sem fundo.
Tudo o que é mundo vai lá parar.
Temos o corpo muito cheio.
A movimentação lá dentro torna-se complicada.

Depois há ainda as outras necessidades básicas. Vejamos:
um – urina
dois – fezes.

Estou a dizer, é claro, os efeitos visíveis des necessidades.
três – alimento
quatro – esperma

Estou a embaralhar tudo!

cinco – bebida
seis – saliva
sete – álcool. E do oito já não me recordo.

Enfim, a agitação dentro do corpo é enorme.
Há coisas querendo sair
e há coisas querendo entrar.
Isto nunca pára.
Depois as mulheres sempre a passar, as mulheres!

É muito difícil ser inteligente neste corpo!

Nota Suína: Gonçalo M. Tavares é um poeta contemporâneo, português, e cujo trabalho eu negligenciei um pouco, até me dar conta de que, como toda boa poesia, o cara fala a mim.

John, o tempo… Andou mexendo com a gente sim…

Postado em Sem-categoria em 18 Setembro, 2007 por Lucas Ed.

A passagem dos anos é mais certa que o bonde.
Bem, eu e o Drummond perdemos o ele e a esperança…
De qualquer forma, vai passar de novo (o bonde, não a banda) e eu fiquei meio sorumbático, como exige a data. E, ante o forte desejo de postar “O tempo não pára“, do Cazuza, preferi essa pequena corrente, que se acha por aí, sem grandes dificuldades, pelos flogs da vida…

- Há 10 anos:
Há dez anos atrás eu já era gente, e essa é a parte mais assustadora. Tava na 7ª série, lá no Pedrão, e, se tomamos exatamente dez anos, minha avó já tinha morrido. Em contrapartida, eu já tinha uns bons amigos que tenho até hoje, como o Elfo ou o Gustavo (Willer e Cegueta já eram “velha guarda”, ehehehe).

- Há 5 anos:
Cara, dezenove anos. Certamente, eu ainda estava nas nuvens, já que meu namoro estava no inicinho, hehe. Quer dizer, era ainda a fase tensa, esse test-drive que chama ficar. Mas era bom.
Aquecimento pro primeiro vestibular, no SENO. Na saída da aula, ia sempre ao Pré-UFMG, encontrar com o Galileu e a Gambarelli. Trabalhava com o Reverendo. Acho que escutava Zeca Baleiro (eu só lembro de estar ouvindo um dia, no serviço, “Pagode Russo”, e tomar um esporro)…

- Há 2 anos:
Poutz, dois anos não são nada! Na verdade, eu mal me lembro… Engraçado, as coisas parecem mais vívidas há dez, cinco anos do que a dois! Era o segundo semestre na faculdade, eu havia sido trocado de equipe no trabalho e, provavelmente, ainda estava achando a mudança toda muito ruim. Nada de muito marcante, se bem me lembro…

- Há 1 ano:
Sabe o efeito bizonho da data passada? Duplica! A esta altura, um ano atrás, eu estava preparando contas e notas pro meu aniversário. Começando a campanha para o CAPsi, tendo aula de manhã e de tarde (maldita Entrevista!).

- Ontem:
Tomei uma esfrega no trabalho e nem foi culpa minha! Sempre detesto, em plantões de 24hs, a hora do almoço. Eu sempre vou de carona almoçar, o sujeito me deixa em casa e segue para a sua. E eu fico esperando a volta pra pegar nova carona mas… Os “motoristas” sempre enrolam, e eu fico naquele receio da refrega (que veio ontem).

- Hoje:
Cheguei em casa já um tanto tarde. Descobri que o carro fica pipocando se eu tentar dirigir com o afogador puxado… Passei na minha mãe, peguei comida, terminei relatório de Psicopatologia e sai pra aula atrasadíssimo, como sempre. Lutei para ficar acordado, e comecei a comprar meu presente de aniversário para mim: os DVD’s de “Presença de Anita”. É um pequeno sacrifício, mas vou poder ver os top-lesse’s (escreve assim?) da Mel Lisboa sempre que me der vontade!

- Amanhã eu vou:
Reunião de comissão de formatura ao 12h.
Ética às 13h15;
Sessão terrorismo em Rorschach;
Uma morte anunciada às 16h30!

- 5 coisas que sem as quais eu não posso viver:
Eu odeio, mas não sei viver sem gente (1). Nem sem internet (2), material de desenho (3), alguma poesia (4) e música (especificamente, meu MP3 player) (5).

- 5 coisas que eu compraria com R$ 1000,00:
Pembas, mil lascas e nada é a mesma coisa! Acho que comprava um Play 2. Uma câmera fotográfica super-mega foda (tá, eu ia ter que completar uma grana!); os demais DVD’s do Chico Buarque que me faltam, uns livros e quadrinhos encadernados e uns outros DVD’s aleatórios.

- 5 maus hábitos:
Ser controlado pela internet;
Não saber administrar dinheiro;
Sempre (eu disse sempre) chegar atrasado;
Ser preguiçoso demaaais;
Me sentir inferior por qualquer coisa.

- 3 coisas que me assustam:
A maturidade;
Dirigir;
a dor.

- 3 coisas que estou vestindo nesse momento:
Não dá, vou contar os chinelos!
bermuda preta e cueca. Oras, tá um calor dos infernos!

- 4 das minhas bandas favoritas: [NO MOMENTO]
Queen;
Cachorro Grande;
Matanza;
Belchior (conta como banda?)

- 3 coisas que eu realmente quero agora:
Não sei. Não me sentir como pilha grande. É cara, ninguém sabe se ainda se encontra pra comprar ou pra que serve…

- 3 lugares que eu quero ir de férias:
Argentina;
França;
Alemanha.

Postado em Luto em 13 Setembro, 2007 por Lucas Ed.

Porra, mais um cara foda e que foi pra Jesus…
Pedro de Lara, quase que nosso Seu Madruga tupiniquim, representante de tudo que o Brasil tinha de mais brega (e, porque não?) mais autêntico, subiu no telhado. Uma pena.
Com essa morte, eu fico pensando quanto do Pedro de Lara era um personagem. Afinal, a causa mortis (cancêr de próstata, essa “doença de macho“) tem toda a cara do velho jurado…

A tevê brasileira (essa vilã hoje em dia) perde mais que os lírios brancos…

Postado em Luto em 13 Setembro, 2007 por Lucas Ed.

Porra, mais um cara foda e que foi pra Jesus…
Pedro de Lara, quase que nosso Seu Madruga tupiniquim, representante de tudo que o Brasil tinha de mais brega (e, porque não?) mais autêntico, subiu no telhado. Uma pena.
Com essa morte, eu fico pensando quanto do Pedro de Lara era um personagem. Afinal, a causa mortis (cancêr de próstata, essa “doença de macho“) tem toda a cara do velho jurado…

A tevê brasileira (essa vilã hoje em dia) perde mais que os lírios brancos…

Sorte ²

Postado em Orkut em 11 Setembro, 2007 por Lucas Ed.

Sorte de hoje: Você é observador e analítico por natureza

Sorte

Postado em Orkut em 7 Setembro, 2007 por Lucas Ed.

Sorte de hoje: Você nunca economiza conselhos ou ajuda

Adélia Prado

Postado em Adélia Prado, Poesia em 4 Setembro, 2007 por Lucas Ed.
Eu nem curto muito Adélia Prado não.
Li umas coisas dela e, sei lá, não me tocaram.
Mas tem esse poema. O Rubem Alves o citou uma vez, num dos livros dele, e eu sempre procurei. Agora, bolando um texto sobre ética, deu na cabeça de procurar de novo, e consegui encontrá-lo, no meio de um artigo teórico:


O Reino do Céu

“Depois da morte
eu quero tudo o que seu vácuo abrupto
fixou na minha alma.
Quero os contornos
desta matéria imóvel de lembrança,
desencantados deste espaço rígido.
Como antes, o jeito próprio
de puxar a camisa pela manga
e limpar o nariz.
A camissa engrossada de limalha de ferro mais
o suor, os dois cheiros impregnados,
a camisa personalíssima atrás da porta.
Eu quero depois, quando viver de novo,
a ressurreição e a vida escamoteando
o tempo dividido, eu quero o tempo inteiro.
Sem acabar nunca mais, a mão socando o joelho,
a unha a canivete – a coisa mais viril que eu conheci.
Eu vou querer o prato e a fome,
um dia sem tomar banho,
a gravata pro domingo de manhã,
a homilia repetida antes do almoço:
‘conforme diz o Evangelho, meus filhos, se
tivermos fé, a montanha mudará de lugar.’
Quando eu ressuscitar, o que quero é
a vida repetida sem o perigo da morte,
os riscos todos, a garantia:
à noite estaremos juntos, a camisa no portal.
Descansaremos porque a sirene apita
e temos que trabalhar, comer, casar,
passar dificuldades, com o temor de Deus,
para ganhar o céu.”

Um pouco do meu agnosticismo vem desse poema. Como pode existir um Céu? Como notar a beleza da luz sem a escuridão?