Eu não sou eu, nem sou o outro
Postado em Pulsão de morte, Reflexões, Tristeza em 25 dezembro, 2009 por Lucas Ed.Vá e não peques mais
Postado em Apatia, Encontros e Desencontros, Reflexões, relacionamentos, solidão em 13 dezembro, 2009 por Lucas Ed.
O que eu quero abordar aqui é a questão do perdão, da desculpa.
Quem pode pedir perdão? Oras, essa é fácil: quem errou. Só quem errou (e admite que o fez) pode pedir desculpas. Mais do que isso, o errado precisa estar arrependido para poder pedir perdão. Esse é o ponto chave da confissão: errar, admitir o erro e dele se arrepender. Lembra quando você era criança pequena sabe deus lá aonde, e brigava com seu irmãozinho/primo/vizinho? Aí vinha a sua mãe e o obrigava a pedir desculpas e “fazer as pases”? Aí, sob o risco de tomar alguns safanões, você ia lá e pedia, não é? Mães mais coercitivas e perversas obrigavam até a um aperto de mãos ou abraço. Perceba que essas desculpas não são verdadeiras (ou sinceras, pra ficar no óbvio): no mais das vezes, você queria mesmo é que aquele irmão/primo/vizinho entrasse em combustão espontânea, e mais ainda por ter te dedado para sua mãe. Aquelas desculpas, aquele aperto de mão ou abraço não representam nada. Você não estava arrependido e, mais das vezes, sequer admitia que esteve errado.
Mas o ritual católico ainda acrescenta um detalhe “tenso”: o padre encerra com um “vá e não peques mais”. Segundo a tradição, a palavra “pecar” tem origem no grego, e quer dizer “errar o alvo”. É como se pecar quisesse dizer: “eu queria fazer algo bacana, mas vacilei e deu merda”. Quando o padre diz essas palavras, ele marca um dos pontos mais importantes e fodas pra mim na confissão. Se já era preciso que você tivesse errado, admitisse o erro, estivesse arrependido dele (tudo no passado), a ritualística católica acrescenta um desejo futuro: não cometer mais aquele erro.
E tem todo um óbvio sentido, né? Qual a razão do meu arrependimento, qual a profundidade dele, se eu pretendo, quando o padre virar as costas, fazer tudo de novo? Ou se, tirante esse fardo deliberado, eu sequer me comprometesse a ter mais cuidado para não repetir o erro? Que droga de arrependimento é esse que simplesmente diz: “Beleza, tô limpo. Azar se acontecer de novo?”. Compromisso e atenção são as palavras aqui. É necessário que eu não queira mais errar para poder ser genuinamente perdoado.
Agora, vamos pensar um caso extremo. Pense numa mulher metropolitana contemporânea. mentalmente sadia. Recém-divorciada, dois filhos (um ainda de colo), vive de jornada dupla (trabalho, afazeres domésticos). Ela não tem muito tempo para cuidar de si mesma. Todos os dias, acorda cedo, dá café às crianças, prepara as lancheiras e leva-as à escola, para então seguir para o trabalho, onde ficará até o início da tarde, quando repete o processo em sentido inverso.
Num dia como qualquer outro, ela acordou cedo, fez o desjejum, deixou o menino mais velho na escola e rumou para o trabalho. Ao fim da tarde, quando entrou em seu carro, o horror: na cadeirinha, jazia, morta de inanição, a criança mais nova.
Acho também que não preciso frisar o caráter de erro da situação. De fatalidade. Acho que nem o psicanalista mais xiita (e, portanto, babaca) vai afirmar algum caráter deliberado nisso. Um erro.
A pobre senhora, com a vida psíquica em frangalhos, há de carregar a culpa por aquela fatalidade. Obviamente, ninguém precisa dizer isso, ela está arrependida. Cometeu um erro, admitiu-o, arrependeu-se e, se o perdão dos homens (na forma da Justiça) não lhe traz conforto, talvez procure o perdão divino. Mas, o arrependimento e o perdão, por mais reconfortantes que pretendam ser, não trazem a criança de volta. Não há remendo que baste.
Mas todo esse perdão, divino ou humano, só tem sentido por dois fatores: 1) o arrependimento afirma que ela não queria cometer o erro que cometeu. 2) Por não ter querido fazer numa primeira vez, é óbvio que ela não vai repetir o erro, nem intecionalmente, mas que também se esforçará para que ele não se repita acidentalmente. É uma questão muito diferente desta aqui, por exemplo.
Mas o erro não tem reparação. Nenhum erro tem, nenhum erro pode ser verdadeiramente “consertado”, pelo menos não quando se trata de errar com pessoas.
Porém, como diz Sérgio Sampaio, se não somos Deus nem Senhores, então como (e porque) perdoamos? Por conta daquilo que eu já disse: a gente confia que a pessoa não quis sacanear, e, se não quis, não vai querer fazê-lo no futuro.
Por isso a gente não perdoa quem age na sacanagem. Quem faz pra machucar, querendo machucar. Não tem perdão.
Mas e quem erra sempre? Quem comete o mesmo erro sempre? Que sai antes do padre dizer “… e não peques mais”? Há perdão? Há perdão para quem diz: “não é minha culpa” mas não tem atenção, ou cuidado, para não cair no mesmo erro? Há como perdoar quem você sabe que vai repetir o erro? Eu não sei. “Só sinto no ar o momento em que o copo está cheio e que já não dá mais prá engolir“¹…
"Pulpfication" ou "O jogo cansa"
Postado em Eu escrevo, Pulsão de morte, Tristeza em 30 novembro, 2009 por Lucas Ed.
"O Clube do Filme", divórcio e relações de pais e filhos
Postado em catarse, emancipação, Encontros e Desencontros, mudanças, problemas, Reflexões, relacionamentos em 24 novembro, 2009 por Lucas Ed.
"Abajur de bunda" – ou "O Brasil é bicho muito estranho"
Postado em Brasil, Insólito é acordar, mulher, Reflexões, Televisão em 22 novembro, 2009 por Lucas Ed.
Se bem que duvido muito: se ela fosse do nível Playboy de ser, geraria tanta “comoção” entre os colegas de faculdade. Pelo menos, não em público assim, nessa manifestação irracional de catarse coletiva.
Quando dinheiro dá em árvore: DVD’s no Brasil
Postado em desenhos animados, Eu tenho, The doctor is..., Vida moderna em 10 novembro, 2009 por Lucas Ed.
O espírito dos dias
Postado em catarse, Desânimo, Pulsão de morte em 31 outubro, 2009 por Lucas Ed.Amigos são…
Postado em Amigos, Encontros e Desencontros, felicidade, Pense nisso, Reflexões, relacionamentos, Saudade em 24 outubro, 2009 por Lucas Ed.
Ética? Reflexões sobre a atuação do psicólogo clínico [ATUALIZADO]
Postado em A desculpa é política, Brasil, Pense nisso, problemas, Psicologia, Reflexões em 8 outubro, 2009 por Lucas Ed.
da acupultura² e de outras práticas que nada tem a ver com o saber psicológico (mesmo que algumas sejam sérias e válidas).
[Pensando em quadrinhos] A trilogia do Infinito e a vida
Postado em Eu escrevo, HQ, Luto, Reflexões, relacionamentos em 29 setembro, 2009 por Lucas Ed.
Quando era moleque, um dia me caiu nas mãos uma minissérie em três partes chamada “Desafio Infinito”. Obra da Editora Marvel pelas mãos do (então) expert em histórias cósmicas Jim Starlin, àquela minissérie se seguiram outras duas, chamadas, em ordem cronológica, “Guerra Infinita” e “Cruzada Infinita”. Juntas, as três obras formaram a pouco lembrada “Trilogia do Infinito”, e contavam a saga do titã louco Thanos e seu amor pela Morte e os esforços dos heróis em detê-lo (e depois, em deter as consequências das suas declarações de amor.Mas a verdade é que, colocada de lado toda a questão cósmica e fantástica, algo se pode aprender dessa série, algo relevante para a vida. É disso que quero falar.
Como disse anteriormente, a primeira fase da “Trilogia do Infinito” chama-se “Desafio Infinito”. Nela, ficamos sabendo do amor (amor mesmo) de Thanos pela Morte e do seu plano para conquistar a atenção e o amor de sua amada: matar metade da população do Universo. Para executar tão hercúlea tarefa, ele precisa reunir as seis Jóias do Infinito (Espaço, Mente, Alma, Realidade, Tempo e Poder), artefatos poderosíssimos que, juntos, tornam o portador onipotente. Durante a trama, Thanos consegue alcançar seus objetivos: une as Jóias na chamada “Manopla do Infinito” e, com elas, dissipa metade da população do Universo. Isso faz com que os heróis da Terra sobreviventes, bem como os campeões de outros mundos (como o Starfox, irmão de Thanos, ou Adam Warlock) se empenhem em deter o vilão e reorganizar tudo.Naturalmente, depois das mais dramáticas batalhas, os heróis, tendo sido ajudados pelo acaso (a traição da neta de Thanos, Nebula), conseguem se apossar da Manopla e, em poder de Adam Warlock, ele a usa para consertar o caos gerado pelo titã louco, que acaba exilado.
Para evitar que tamanho caos se repita, Warlock toma duas decisões: primeiro, desfaz a manopla, e distribui as Jóias entre um grupo intergalático conhecido como “Guarda do Infinito”, ficando cada membro com uma jóia (Gamora com a jóia do Tempo; Pip com a jóia do Espaço; Drax, o destruidor, com a jóia do Poder; Serpente da Lua com a jóia da Mente e o próprio Warlock com a jóia da Alma. A última jóia, da Realidade, foi entregue a um sexto e secreto membro, para que não fosse retomada). Já na segunda decisão, Warlock decide expurgar de si todo o bem e todo o mal, restando a plena neutralidade. Das duas decisões, esta é a que acarretará os maiores danos.
Pois então, ao “Desafio Infinito” se seguiu a “Guerra Infinita”. Nela, vários heróis e vilões começam a ser atacadados por clones deturpados e malignos de si mesmos, as “contrapartes” (a mais famosa é a do Aranha, com seis braços e duas pernas). Inclusive Thanos (que vivia uma vida de fazendeiro no exílio pós-Desafio).A verdade é que a parte má de Warlock, chamada Magus, intentava contra o universo, e só a improvável união dos heróis, da Guarda do Infinito e de Thanos poderia (e fatalmente conseguiu) vencê-lo.
Em “Cruzada Infinita” descobrimos que a bondade de Warlock se personificou na Deusa que, criando o Ovo Cósmico (uma arma de poder imenso, quase equivalente à Manopla do Infinito) e convocando para seu exército todos os heróis que tinham alguma relação com o divino (Tempestade dos X-men e Thor, por exemplo) pretendia expurgar todo o mal do universo, iniciando uma verdadeira cruzada.
O problema, conforme descobrem os heróis sob o comando de Warlock, é que ao fazer isso a Deusa dizimaria toda a realidade. Era preciso evitá-la, claro.
Provavelmente (ou melhor, muito provavelmente) o que vou falar agora passe longe de ser o objetivo de Jim Starlin quando escreveu “A Trilogia do Infinito”, mas o que é uma obra senão um suporte para múltiplas interpretações?Diferente da primeira minissérie, as continuações (“Guerra” e “Cruzada” que são a mesma coisa em termos, com a diferença que a cruzada é uma guerra que se supõe santa) deixam de lado o niilismo de Thanos e seu amor impossível para se focarem no drama de Warlock, tendo de arcar com a decisão mais errada de sua vida, ainda que não menos bem intencionada. Onipontente, ao expurgar de si o bem e o mal, Adam esperava ter clareza em todas as decisões que, como Guardião da Jóia da Alma, teria de tomar dali em diante.
Mas a pergunta é: retirada a essência dual do homem, o que sobra? E mais, descompensada pelo reflexo invertido, o bem ainda é bom e o mal ainda é mau?
Assunto tangente no grande arco de Starlin, a conclusão que se chega é que, mesmo um sujeito que é considerado o homem perfeito (assim Warlock, que já se chamou simplesmente “Ele”, é descrito) não pode existir de forma neutra. Afinal de contas, uma neutralidade humana (ou super humana) é impossível pois destrói a base: neutralizado, o homem se desumaniza. Vira uma pedra ou um metal, qualquer coisa que não um homem.
Esse dilema já estava presente lá nos estudos de Husserl, lá nos meados do século XIX, já apontavam: pode-se procurar (e imprimir) neutralidade em tudo, desde que o homem não esteja no meio. Perceba que Husserl, ao fundar sua fenomenologia, não pregava a dualidade bem/mal no homem (isso é coisa do Jung), mas a não neutralidade. Toda consciência escolhe, impõe significado próprio, altera e modifica. O mundo só pode ser neutro se não estivermos nele ou se considerarmos que, parte do mundo, nossa capacidade de “desneutralizar” as coisas é tão natural que só considerando-a é que podemos chegar a um estado “neutro”.
Ao isolar o bem e o mal, Adam Warlock queria sempre decidir pelo “certo”. Sem a noção de “errado” (provavelmente oriunda do bem e do mal conforme o cria) é possível ter certeza do certo?
Pode ser que você pense toda essa discussão como inútil, por dois motivos: o primeiro, porque Adam Warlock é um personagem ficcional. Segundo porque, mesmo sendo ficcional, ele sequer é humano!
Bem, para a primeira questão, vou sim a Carl Gustav Jung e Joseph Campbell, este especialista em mitologia.
Na opinião de ambos, um mito, uma história ficcional, fantástica e que encerra em si uma explicação para algo do mundo, serve também como tradutora de um conflito humano. Algo indiretamente indizível pode ser traduzido, representado num mito.
Sim, você não é bobo e percebeu que eu vou tomar a série de Jim Starlin como um mito. Sendo um, que questão humana ele encerra em si?Justamente a dualidade bem e mal. Quem não se angustia quando, querendo fazer o bem, acaba causando o mal? Ou, quando se percebe desejando realmente o mal a outrem? Quem não desejou conseguir ser simplesmente justo? Quem nunca quis para si a neutralidade plena?
Jim Starlin encerra o caráter mítico de seu trabalho justamente ao colocar essas dúvidas no coração de Adam Warlock. Se no “Desafio…” Thanos fez tudo o que fez apenas por uma paixão, por amor, Warlock não quer repetir nada disso e se desumaniza¹.
Engraçado é que essa desumanização inverte as posições: nas séries subsequentes ao “Desafio…”, Thanos (que conservara sua humanidade) deixa de ser o vilão e, redimido, é peça fundamental para o sucesso dos heróis (inclusive, é ele o depositário secreto da Jóia da Realidade), enquanto que o todo o problema foi gerado pelo próprio (e deseumanizado) Adam Warlock! E, ironia das ironias, Jim Starlin põe essa coisa não humana que Adam Warlock se tornou pra cuidar de qual jóia? A da Alma, oras!
Mas vamos inverter um pouco as posições. Quem nunca se percebeu querendo “corrigir” os defeitos de alguém? Lhe retirar o mau e usufruir apenas do que há de bom a se oferecer? Quantas vezes a gente não quis isso de nós mesmos?
O problema é que o ser humano, como disse Sartre, é um todo, e não uma coleção. Não se pode tirar uma parte ou outra, nem acrescentar nada. Cada sujeito é uma pessoa completa e bem acabada, seja nos defeitos ou nas qualidades.
Daí, pra se viver com uma pessoa, é preciso aceitar o “pacote completo”: numa visão bem mercadológica, é preciso aceitar os defeitos (o mal) como sendo um preço a ser pago em prol das qualidades (o bem), sabendo que, sem essas coisas, não teríamos uma pessoa.
Teríamos uma pedra ou um metal.
E quem quer conviver com uma pedra ou um metal?
Nem Adam Warlock quis…
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Notas
¹ Se você ficou confuso com o salto do bem e do mal para as paixões próprias, explico melhor: quando expeliu de si o bem (a Deusa) e o mal (Magus) é preciso pensar a quem serviam este bem e mal. Ele expeliu o desejo de fazer o bem a quem? Fazer o mal a serviço de quem? Não ao mundo, ou ao universo. Se pensamos que ao expelir as duas entidades, Warlock esperava agir com justiça (e justiça pressupõe, de início, coletividade – todos sujeitos às mesmas leis e critérios), só podemos crer que o bem expurgado era o bem a ele, Warlock, assim como o mal expulso estava também a seu serviço! Não existe o absoluto bem nem o absoluto mal. Nem o Deus judaico/cristão é plenamente bem: até ele tem um “povo eleito”…









