Eu não sou eu, nem sou o outro

Postado em Pulsão de morte, Reflexões, Tristeza em 25 dezembro, 2009 por Lucas Ed.

Ontem durante a ceia de Natal, eu estava sentado de frente para o espelho. Conversávamos, comentávamos, riamos. Por fora, e por dentro de mim imperava uma miséria, miséria de terra seca, de sertão. Não é culpa da música nordestina que agora ouço mais. É culpa da vida mesmo, dessa coisa variada que nos consome, disfarçada de nossa, quando somos nós que a ela pertencemos.

De relance, olhei o espelho. Não me vi. Do contrário, vi por um instante, com nitidez e clareza, a imagem de meu pai. Mais do que a cabeça nua, a barba se desfez para fazer-nos iguais. Foi um instante, um relâmpago: quando olhei de novo, o espelho mostrava-me apenas eu mesmo.
Não sei o significado disso. Penso que não posso saber.
Quem sabe explicar o que o espelho lhe reflete?
Afora todas as psicanálises, todos os psicologismos, todos os bares das esquinas, há explicação?
Por um instante no espelho não me vi.
Por um instante, meu reflexo era meu pai.
Sei lá se por efeito divino, alcoólico, inconsciente ou meramente oftalmológico, em meu lugar, no espelho, me olhava meu pai.
Desfeita a miragem, vi que a todos os meus problemas, a toda a dor que ocupa meu peito, que pesa, que aprofunda, acrescentou-se mais uma: nem no espelho eu era eu.

Vá e não peques mais

Postado em Apatia, Encontros e Desencontros, Reflexões, relacionamentos, solidão em 13 dezembro, 2009 por Lucas Ed.

No último momento do ritual católico da confissão, o padre se volta ao confessante e diz: “Eu te absolvo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Vá e não peques mais.” Qual o significado disso? Muita coisa. Vamos um pouco a eles.


Na cerimônia da confissão, o fiel está pedindo a Deus perdão por ter pecado. Não vou entrar no mérito do “se é perdão a Deus, então por que tenho que falar com o padre?”, essa não é, nem passa perto de ser, a cerne deste post.
O que eu quero abordar aqui é a questão do perdão, da desculpa.
Quem pode pedir perdão? Oras, essa é fácil: quem errou. Só quem errou (e admite que o fez) pode pedir desculpas. Mais do que isso, o errado precisa estar arrependido para poder pedir perdão. Esse é o ponto chave da confissão: errar, admitir o erro e dele se arrepender. Lembra quando você era criança pequena sabe deus lá aonde, e brigava com seu irmãozinho/primo/vizinho? Aí vinha a sua mãe e o obrigava a pedir desculpas e “fazer as pases”? Aí, sob o risco de tomar alguns safanões, você ia lá e pedia, não é? Mães mais coercitivas e perversas obrigavam até a um aperto de mãos ou abraço. Perceba que essas desculpas não são verdadeiras (ou sinceras, pra ficar no óbvio): no mais das vezes, você queria mesmo é que aquele irmão/primo/vizinho entrasse em combustão espontânea, e mais ainda por ter te dedado para sua mãe. Aquelas desculpas, aquele aperto de mão ou abraço não representam nada. Você não estava arrependido e, mais das vezes, sequer admitia que esteve errado.
Mas o ritual católico ainda acrescenta um detalhe “tenso”: o padre encerra com um “vá e não peques mais”. Segundo a tradição, a palavra “pecar” tem origem no grego, e quer dizer “errar o alvo”. É como se pecar quisesse dizer: “eu queria fazer algo bacana, mas vacilei e deu merda”. Quando o padre diz essas palavras, ele marca um dos pontos mais importantes e fodas pra mim na confissão. Se já era preciso que você tivesse errado, admitisse o erro, estivesse arrependido dele (tudo no passado), a ritualística católica acrescenta um desejo futuro: não cometer mais aquele erro.
E tem todo um óbvio sentido, né? Qual a razão do meu arrependimento, qual a profundidade dele, se eu pretendo, quando o padre virar as costas, fazer tudo de novo? Ou se, tirante esse fardo deliberado, eu sequer me comprometesse a ter mais cuidado para não repetir o erro? Que droga de arrependimento é esse que simplesmente diz: “Beleza, tô limpo. Azar se acontecer de novo?”. Compromisso e atenção são as palavras aqui. É necessário que eu não queira mais errar para poder ser genuinamente perdoado.
Agora, vamos pensar um caso extremo. Pense numa mulher metropolitana contemporânea. mentalmente sadia. Recém-divorciada, dois filhos (um ainda de colo), vive de jornada dupla (trabalho, afazeres domésticos). Ela não tem muito tempo para cuidar de si mesma. Todos os dias, acorda cedo, dá café às crianças, prepara as lancheiras e leva-as à escola, para então seguir para o trabalho, onde ficará até o início da tarde, quando repete o processo em sentido inverso.
Num dia como qualquer outro, ela acordou cedo, fez o desjejum, deixou o menino mais velho na escola e rumou para o trabalho. Ao fim da tarde, quando entrou em seu carro, o horror: na cadeirinha, jazia, morta de inanição, a criança mais nova.
Todo mundo conhece a história. Já aconteceu mais de uma vez.
Acho também que não preciso frisar o caráter de erro da situação. De fatalidade. Acho que nem o psicanalista mais xiita (e, portanto, babaca) vai afirmar algum caráter deliberado nisso. Um erro.
A pobre senhora, com a vida psíquica em frangalhos, há de carregar a culpa por aquela fatalidade. Obviamente, ninguém precisa dizer isso, ela está arrependida. Cometeu um erro, admitiu-o, arrependeu-se e, se o perdão dos homens (na forma da Justiça) não lhe traz conforto, talvez procure o perdão divino. Mas, o arrependimento e o perdão, por mais reconfortantes que pretendam ser, não trazem a criança de volta. Não há remendo que baste.
Mas todo esse perdão, divino ou humano, só tem sentido por dois fatores: 1) o arrependimento afirma que ela não queria cometer o erro que cometeu. 2) Por não ter querido fazer numa primeira vez, é óbvio que ela não vai repetir o erro, nem intecionalmente, mas que também se esforçará para que ele não se repita acidentalmente. É uma questão muito diferente desta aqui, por exemplo.

Mas o erro não tem reparação. Nenhum erro tem, nenhum erro pode ser verdadeiramente “consertado”, pelo menos não quando se trata de errar com pessoas.
Porém, como diz Sérgio Sampaio, se não somos Deus nem Senhores, então como (e porque) perdoamos? Por conta daquilo que eu já disse: a gente confia que a pessoa não quis sacanear, e, se não quis, não vai querer fazê-lo no futuro.
Por isso a gente não perdoa quem age na sacanagem. Quem faz pra machucar, querendo machucar. Não tem perdão.

Mas e quem erra sempre? Quem comete o mesmo erro sempre? Que sai antes do padre dizer “… e não peques mais”? Há perdão? Há perdão para quem diz: “não é minha culpa” mas não tem atenção, ou cuidado, para não cair no mesmo erro? Há como perdoar quem você sabe que vai repetir o erro? Eu não sei. “Só sinto no ar o momento em que o copo está cheio e que já não dá mais prá engolir“¹…

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"Pulpfication" ou "O jogo cansa"

Postado em Eu escrevo, Pulsão de morte, Tristeza em 30 novembro, 2009 por Lucas Ed.

Não sou detetive. Já fui, detetive público. É, público. Nada de escritório à meia-luz, nada de pôr os pés sobre a mesa. Do contrário, favelas abafadas e sol quente de verão. Não sou mais. Sou psicólogo.

Uma mistura indigesta entre Adrian Monk e Gregory House, com pitadas de Hank Moody, mas os três com muito menos cabelo. Na verdade, cabelo nenhum. Mas não manco nem sou tão obsessivo. Mas tento usar sempre camisetas pretas. E frases curtas, como um Nick Belane tropical. Não me importo se as garotas gostam. Acho que meu charme está no sorriso, cheio de caninos. Chove lá fora, mas eu nunca uso guarda-chuva. Escrevo estas besteiras num caderninho europeu que provavelmente vale mais do que eu. Picasso, Van Gogh e Hemingway tiveram um destes, sem contar Henry Jones Sr. Isso depõe mais contra a reputação do caderninho do que a meu favor. É um caderninho de melancólicos. Mas eram melancólicos famosos. E eu, o primeiro melancólico à esquerda. Usando suas folhinhas européias pra jogar a toalha. Não tem graça. Meu rosto é de aço. Sorrir dói. Em mim e em você.
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Um microconto inspirado em “Pulp”, de Charles Bukowsky. E na fase de merda que eu tô atravessado.

"O Clube do Filme", divórcio e relações de pais e filhos

Postado em catarse, emancipação, Encontros e Desencontros, mudanças, problemas, Reflexões, relacionamentos em 24 novembro, 2009 por Lucas Ed.

Semana retrasada, com vistas a dar uma enxugada na minha pilha de livros para ler, peguei um dos menorzinhos que estava por lá: “O Clube do Filme”, de David Gilmour (não, não é o cara do Pink Floyd).

“O Clube do Filme” conta uma história inusitada (e real) David é um crítico de cinema desempregado. Divorciado, pai de um filho de 15 anos que vem morar com ele. O problema? O garoto está como prego no angu no que tange à escola. As notas e o interesse afundando, a ponto de o pai não saber o que fazer. Aí ele (o pai) propõe o inusitado do inusitado: o filho (Jesse) pode abandonar a escola, desde que cumpra duas “obrigações”: 1) Não se envolver com drogas e 2) por semana, assistir junto do pai três filmes, e discuti-los. É isso. Simples assim, o livro conta três anos na vida dessa dupla, sendo que acaba que os filmes viram pano de fundo. A figura passa a ser a relação entre David, seu filho Jesse e o amadurecimento de ambos.
Como eu já disse anteriormente (e em outros lugares), “O Clube do Filme” não é um livro que vai mudar a sua vida. Provavelmente vai passar perto disso, dependendo do caso (o meu) mas vale muito a pena a leitura. É leve, é estranho às vezes, mas é uma história muito legal. E imagine que foi um tiro no escuro absurdamente temerário por parte do pai (e ele sempre teme que tenha tomado a decisão errada). Você vai ficar curioso pra saber o rumo que a coisa vai tomar.
Enfim, mas o que eu quero enfatizar nesse texto não é a decisão que David toma, ou as consequências diretas dela no “rendimento escolar” de Jesse. Tampouco os filmes (e as críticas a estes filmes) que eles assistem. Quero falar dum “ganho secundário” o qual, eu arrisco, seja a razão do sucesso que o livro vem fazendo. Quero falar da relação que se constrói entre pai e filho.
Veja bem, David e Maggie, os pais de Jesse, são divorciados. Ele um crítico de cinema, ela uma atriz de teatro. Essa questão das profissões é importante, porque caracteriza que tipo de pessoa (ou de mentalidade) eles têm. São um casal liberal, “moderno”. No inicinho da trama, somos informados que David vive com a atual esposa (Tina, uma jornalista) num loft, enquanto Jesse e a mãe vivem numa casa mais ampla. Mas a “trama” efetivamente começa quando David e Tina trocam de residência com Maggie: ela vai para o loft, eles vão para a casa, tudo isso com o objetivo de que o adolescente Jesse possa conviver com o pai. Viu o quanto eles são mudernos? Durante a narrativa, David vai várias vezes à casa da ex-mulher para jantar, numa nice. Eita, se todo mundo fosse assim…
Mas a leitura do livro (que, como eu disse, é muito mais sobre a relação pai/filho) me deu alguma inveja. Bem, lá se vão dezesseis anos que meus pais se separaram. Teve aquela fase pós-divórcio, imediata, do mundo das nuvens (pai e mãe, cada um de seu canto, se desdobrando para paparicar mais os filhos), teve a fase da revolta, que foi seguida pela fase do afastamento, e hoje vivemos a fase do “Ok, somos adultos. Vamos viver como tal”.
Mas, nessas fases todas, eu nunca tive o meu pai. De certa forma a gente está junto, e hoje nos relacionamos muito bem, mas o processo todo fez com que eu o perdesse.
Obviamente não como se perde um parente ou amigo que morre. Meu pai está vivo. Mas “perder” no sentido de não ter em casa, de não se encontrar quando chega do trabalho, por exemplo. “Naquela mesa está faltando dele”, diz uma música do Nelson Gonçalves.
O convívio (arquitetado) que Jesse tem com o pai, justamente na adolescência, é aquilo que me faltou. Meu pai não estava exatamente presente quando minha avó morreu, quando arrumei minha primeira namorada (ou a segunda, tampouco a terceira), ou quando passei no vestibular. O divórcio, os lares separados, fatalmente impõe-nos uma barreira que não será quebrada nunca mais. De um jeito triste, constato que os enteados de meu pai tiveram-no muito mais do que eu.
Mas, de alguma forma, isso não é culpa de ninguém. É o curso estranho da vida, das escolhas que fazemos numa hora e cujas conseqüências só nos daremos conta muito, mas muito tempo depois, num período além de qualquer arrependimento.
A vida tem dessas coisas, mas nunca deixa de ter razão.
Agora, há uma nova situação. Ou uma velha situação se repetindo ao alcance dos olhos.
Eu sempre fui bastante próximo da família da Raquel. Próximo ao ponto de me sentir plenamente confortável de ir à casa dos avós dela… Sem ela! Pois é.
E há, particularmente um tio-torto (as pessoas ainda usam este termo? Conseguem entender o que quero dizer quando o utilizo?) que sempre me tratou muitíssimo bem, desde o primeiro momento, de modo que nutro por ele grande respeito e carinho. Além disso, quando comecei a namorar com a Raquel, esse tio-torto e a tia sua esposa tinham três filhos pequenos, tendo o mais velho uns 8 anos na época. Tanto me afeiçoei pelos tampinhas quanto eles por mim, e isso continua (no último domingo arrumamos uma zona num churrasco de família, subindo em árvores para pegar amoras e jamelão).
Mas… Os pais se separaram. A notícia me pegou de surpresa e me chateou um bocado, não nego. E o pai (ex-tio torto) foi-se embora, arranjou outra mulher, e muito provavelmente jamais seria visto.
Quando fui fazer a prova do ENADE, recentemente, encontrei com o ex-Tio-torto trabalhando de fiscal de corredor. Conversamos um papo rápido, como quem mata saudades curtas, perguntas sobre família, como-vão-as-coisas e tal. Caminhando em direção à minha sala, notei que ele se emocionara. Nos despedimos e fui fazer a prova.
A Raquel já tinha me contado que os três garotos estavam reagindo de maneiras diversas à situação. O mais novo, aparentemente ignorando o grosso da situação. Vai, passa os fins de semana com o pai, depois volta para casa. O do meio, está um pouco dividido. Ora vai à casa do pai, ora não quer ir. Já o mais velho, hoje com seus quinze anos, simplesmente não quer saber. Assumiu novas responsabilidades no cuidado dos irmãos mais novos e segue a vida, tendo um alvo claro para toda a sua revolta adolescente. Quando comentei com ele que havia encontrado com seu pai, a resposta transpareceu toda essa raiva.
Veja bem, eu o entendo. Passei por isso. Ninguém gosta de ser deixado, de ver alguém de quem se gosta muito ser trocada por outra pessoa que não nos diz nada. Na exata idade dele, eu também queria que o chão engolisse o meu pai.
Mas ouvindo o garoto falar naquela mal dissimulada raiva, eu pude ver exatamente o que se dava. Um adolescente, começando a cobrar (e realmente ser cobrado) do mundo, crescendo, descobrindo coisas e de quem simplesmente se tira a referência. Ou melhor: a referência o sacaneia e vai embora (não tô dizendo que divorciar e arrumar outra mulher é sacanagem. Não do ponto de vista de quem o faz. Mas e de quem fica?). De repente a vida está toda ao contrário e alguém precisa levar a culpa (que é de ninguém).
Este texto, acredito, deixa óbvio que tudo isso me tocou. Mas a verdade é que não fiz nada. Diante daquilo tudo, projetei na mente um futuro que talvez repita o meu nos pontos chave, cheio de vitórias comemoradas pela metade, cheio de momentos de solidão porque faltava uma pessoa. Pensei que talvez eu pudesse ajudar, dizer de como eu entendo aquilo tudo, sei como é ruim, e que escolhi o caminho que não dá exatamente certo.
Mas aquela raiva, acreditem, é necessária. É passando por ela que a gente uma hora se percebe do outro lado da história, magoando outra pessoa, e se dá conta que aquela raiva toda, meio surda, só existe porque, de verdade mesmo, não existe ninguém que mereça levar a culpa de nada. Mas não há quem nos possa ensinar isso. Já dizia Kierkegaard: nas teorizações sobre a vida, é a vida mesma que se perde.
Só espero que o garoto gaste menos tempo do que eu gastei pra perceber tudo.
E aproveite melhor que eu o pouquinho de pai que ainda se pode ter depois de um divórcio.

"Abajur de bunda" – ou "O Brasil é bicho muito estranho"

Postado em Brasil, Insólito é acordar, mulher, Reflexões, Televisão em 22 novembro, 2009 por Lucas Ed.

Tem umas coisas que a gente poderia viver vinte vidas, e mesmo assim ia morrer sem entender.
Por exemplo, o caso daquela mocinha em São Paulo, a Geisy Arruda.
Primeira coisa, e acho que é inquietação percebida (e sentida) por muita gente, é “como aquilo aconteceu”? A garota vai com um vestido curto à universidade, passeia pelos corredores e o campus inteiro pára? Alunos saindo de sala de todos os lugares para xingar e ver a “prostituta de vestido provocante”? Caramba, isso não faz sentido nenhum pra mim. Se ela tivesse entrado no meio do culto dentro de alguma igreja cristã qualquer (e sua peculiar aversão ao sexo), ou num velório, talvez que ainda ia. A bizarra reação traria em si algum sentido. Mas numa universidade? Um lugar apinhado de gente jovem e descolada, disposta a curtir a vida, um vestido (ou a falta de) gerou tanta celeuma? Vai entender que tempos são estes…
Mas a questão não pára por aí. Me assusta também é a proporção que a coisa tomou fora da Uniban, a universidade da moça. O país inteiro parou. Dizem que ela agora dá autógrafos por aí, que virou celebridade. Me lembrou a Darlene de Brasília, que foi assunto uns anos atrás também por conta de um escândalo. O mais engraçado disso tudo? A moça se acha digna da “repercussão” que seu caso teve, do status de heroína ao qual foi alçada. Numa entrevista, conta que gostaria de voltar à Uniban, de cabeça erguida. E arremata: ninguém precisa vir me pedir desculpas, mas se alguém me aplaudir, vou gostar. Senhoras e senhores, a reencarnação de Maria Quitéria!
Oras, a Playboy manifestou seu interesse em ter Geisy Arruda em uma de suas edições. A Sexy, revista do Otávio Mesquita, também, falando até em capa.
Peraê, peraê. Tudo bem que recentemente a Playboy trouxe a Fernanda Young como capa, mas até o bizarro costuma ter limite.
Sim, senhoras e senhores, estou manifestando o meu espanto pelo convite feito à Geisy Arruda. Sim, porque verdade seja dita: se Geisy não é o tipo de mulher pra capa da Playboy (ou da Sexy) ao meu gosto pessoal ela nem é mulher do tipo desejável!
Fala sério! Peitinhos termômetro (daqueles que te informam a temperatura do chão quando ela saca o sutiã), quadril e bunda inexistentes, aquela barriguinha linda de avalanche e, tudo isso, coroado por aquela carinha bonita de biscoito Trakinas, com aqueles belos cabelos cor de palha de milho.
Um monumento! Uma Vênus de Milho!
Se bem que duvido muito: se ela fosse do nível Playboy de ser, geraria tanta “comoção” entre os colegas de faculdade. Pelo menos, não em público assim, nessa manifestação irracional de catarse coletiva.
Evidentemente, eu não estou pregando o esquecimento do caso. Foi um absurdo, uma bestialidade, uma situação completamente irracional, tomada por “universitários”, justamente essa galera que se julga o crème de la crème da sociedade.
Mas isso é razão pra uma capa de revista masculina?
Porque se for, diga logo. Que aí vou amanhã mesmo começar a organizar coros de “Puta! Puta!” para algumas colegas de faculdade com seus provocantes vestidinhos de verão, figuras anos-luz melhores da “Darlene da Uniban”…

Quando dinheiro dá em árvore: DVD’s no Brasil

Postado em desenhos animados, Eu tenho, The doctor is..., Vida moderna em 10 novembro, 2009 por Lucas Ed.

Atualmente, estou atendendo na clínica-escola algumas pessoas bem diferentes entre si. Um policial civil, um garoto de 11 anos com problemas de disciplina e um grupo de jovens adultos com problemas na carreira que escolheram. Destes, o garoto de 11 anos é o que vem sendo atendido há mais tempo e o pior, sem grandes resultados.

Assim, estando o meu tempo com ele se esgotando, e sua vida entrando num momento crítico, decidi mudar de postura, e tomar uma posição mais pedagógica do que clínica. Inspirado no livro “O Clube do Filme”, de David Gilmour (não é o cara do Pink Floyd), decidi exibir audiovisuais que permitissem a reflexão sobre a situação que ele vive, para assim ter uma via de acesso à subjetividade (tão reprimida!) do menino.
Para começar, pensei num episódio do novo desenho do Batman, “Os bravos e destemidos” (The Brave and The Bold, no original). O episódio em questão, co-estrelado pelo Homem Borracha, chama-se “Terror na Ilha dos Dinossauros”. Escolhi-o porque, durante o episódio, há toda uma questão acerca do passado do Homem Borracha: é possível apagar os erros do passado (perdão pelo trocadilho) e começar tudo de novo? Ou sempre olharão com desconfiança para o ex-pecador?
Eu tinha esse episódio aqui no PC, baixado com legendas. Poderia levá-lo assim, mas… Duas coisas me impediram: o primeiro, não queria chegar com um material pirata justamente quando quero melhorar o posicionamento moral do garoto. Seria um contra censo. Ao mesmo tempo, tem a questão das legendas. Meu pequeno cliente/paciente tem alguns problemas na escola, estre eles, na leitura/escrita. Daí, a necessidade do episódio dublado.
Como eu sabia que foi lançado um DVD do desenho, fui às lojas procurá-lo. E encontrei nas Americanas, com um preço dentro do que havia reservado para tal (R$29,90, minha meta era até trinta mangos). Mas, qual não foi a minha surpresa quando, ao conferir se o episódio que queria estava contido no disco, perceber que haviam apenas quatro episódios (“A ascensão do Besouro Azul!”; “Terror na Ilha dos Dinossauros!”; “Ameaça no Fundo do Mar!” e “A Invasão dos Papais Noeis Falsos!”)! Quatro episódios por trinta reais? Ah, tenha a santa paciência, Cartoon Network!
E isto porque, duas semanas atrás adquiri, na mesma loja, pelo mesmo preço, a primeira temporada completa de Californication, por exemplo. A diferença, irrisória, foi que enquanto Californication foram dois discos com treze episódios, no total, mais extras. E o produto do Cartoon Network? Nem um extrinha que seja, um making off, um mini documentário sobre a animação, nada!
bem, quem me conhece sabe que eu não vou, nem pretendo, defender a pirataria. Mas, pra comprar por exemplo, toda a temporada da animação, um fã desembolsaria noventa mangos.
Noventa.
Meus parabéns, Cartoon Network! Sempre lembrando aos espectadores que os bons tempos… Já foram, e não voltam.

O espírito dos dias

Postado em catarse, Desânimo, Pulsão de morte em 31 outubro, 2009 por Lucas Ed.

Este feriado prolongado, dia de finados, traz duas mil dúzias de coisas que tenho que fazer, e, olhando friamente, até tempo para fazê-las.
Mas não há energia para tanto. Não há energia para nada.
Eu bem queria dizer que esse meu desânimo é em decorrência do assassinato de um ex-aluno meu de catequese, na noite de ontem. Não é. Acho que não sou tão humano assim. Pensei por alguns instantes, quando recebi a notícia, que eu tinha alguma culpa no ocorrido. Não tinha. Talvez, o envolvimento desse ex-aluno com o tráfico, apenas revele que eu não sou exatamente um professor de carisma, alguém admirável como diz Freud em “Alguns apontamentos sobre a psicologia escolar“. Ou pode ser que, reintérprete de um papel já definido, esse papel não seja exatamente bom, daí eu não poder desempenhá-lo tão bem como gostaria.
Fico lembrando da personagem da Baiana, do filme “Ó paí, ó”, que todo o tempo se queixa, jornal na mão, do aparecimento de “mais três presunto“. A morte ficou banal, ao menos pra mim. Daí não acreditar que a origem de meu desânimo foi tão funesta notícia. A vida segue como sempre seguiu: vamos com ela até a morte, literalmente.
Isso, se tivermos gasolina para chegar até lá.

Amigos são…

Postado em Amigos, Encontros e Desencontros, felicidade, Pense nisso, Reflexões, relacionamentos, Saudade em 24 outubro, 2009 por Lucas Ed.

Estes últimos dias têm sido os dias do amigo. Sim, num movimento que começou na quinta-feira, a cada dia eu tenho encontrado com um grupo diferente de amigos.

Tudo começou na quinta-feira, quando fui a um bar (o plano inicial era cinema) com a galera da faculdade. Em termos de amizade, é evidentemente o grupo mais novo (em termos de “fazer parte”). Comemos, bebemos, rimos e rimos mais um pouquinho dos efeitos do álcool.
Foi bacana.
Ontem, sexta-feira, foi dia de encontrar com o grupo de amigos do ensino médio. Rimos absurdamente, bebemos muito mais, lembramos as mesmas histórias do tempo de antigamente que sempre lembramos, dançamos a rodo ao som de músicas dos anos 80. Fizemos planos, contamos como mesmo nossos trabalhos horríveis daqueles tempos, a rotina absurda pra moleques de 16 anos, naquela época tudo era mais fácil e divertido. Gravei um cdzinho (igual antigamente se gravavam K7′s) com umas coisas pra um desses amigos ouvir. Prometi um poema, duma idéia que surgiu lá mesmo.
Foi bem bacana.
Hoje, sábado, vou atender ao convite (inesperadíssimo!) de um amigo dos tempos… do ensino fundamental! Lá da terceira, quarta série primária, e que não vejo há, pelo menos, uns 10 anos! (com “ver” eu quero dizer sentar, conversar e coisa e tal, nada de encontros casuais pela rua).
Só o inesperado do convite já bastou para iniciar um movimento grande em mim. Ainda não sei como será o reencontro, tão distanciado no tempo, referente há uma época tão, tão remota.
Entenda que a ansiedade desse reencontro é proporcional à importância dele: éramos amigos inseparáveis e, para se ter uma idéia, eu comecei a colecionar quadrinhos com esse amigo! Eu comprava um gibi, ele comprava outro, líamos, trocávamos e depois armazenávamos num lugar comum (a casa dele, que era pertinho e mais organizada).
Vem aí um lance bacana.
A verdade é que esses encontros todos têm me feito pensar na amizade como instância, como instituição, como fonte de vida, de suportar a vida. É uma verdade sartreana doída e incontestável, de que nascemos sozinhos e sozinhos morreremos, mas precisamos passar o espaço entre uma coisa e outra igualmente sós?
Ontem, quando dançávamos ao som de “Meu erro”, do Paralamas, um grupinho de pessoas ao nosso lado se abraçou e seguiu dançando assim. O Leandro, que estava comigo, arremendou: “Bicho, essa energia que vem da amizade é foda!” É mesmo. Foda. Nós dois ali, que nos vemos tão pouco (essa semana tivemos dificuldade de nos falarmos por telefone!), aspiramos aquela energia e improvisamos os passinhos mais malucos e ao mesmo tempo, mais divertidos (tão malucos e divertidos que, imediatamente em seguida, um sujeito se aproximou de mim e falou: “Cara, amanhã quando estiver sóbrio, em casa, quero lembrar desse passinho aí e fazer igual” ao que eu respondi: “Eu também!”).
Não tem jeito de repetir. Aquele passinho veio não só da energia daquele momento, mas da energia plena de história, de vivências que compartilhamos, dos momentos engraçados e das ciladas de quase dez anos atrás. Aquele passinho não se repete: é preciso vivê-lo de novo, e vai ser diferente.
Mas tudo isso tem um ponto triste: rever essas amizades antigas, deixa claro que o tempo está passando e nada nunca permanece como está. Tudo muda de um jeito ou de outro, e nunca mais teremos (mesmo que se volte a conviver diariamente) a mesma sensação que tínhamos há quase dez anos atrás. Nos atualizamos. Mudamos. O que permanece, e se mantém, é coisa de outra ordem.
Exemplo disso são meus amigos da faculdade. Se a amizade tivesse fases, estaríamos no mesmo estágio que eu, Leandro e Zebra (o pessoal do segundo grau) tínhamos lá nos primórdios. Aquele estágio da aventura, do descobrimento mútuo, do estabelecimento de confiança. Mas é diferente. Há oito anos atrás eu me socializava, fazia amigos de maneira diferente do que faço hoje. E a isto nem estou acrescentando o fato de que também os amigos são outros, muito outros, vindos de contextos diferentes e indo para lugares diferentes.
E pode ser que você faça uma leitura rasteira e diga: “Ah, quer dizer que suas amizades do ensino médio são melhores que as da faculdade?” Não, é uma grande mentira. Diferente não implica, necessariamente, uma hierarquização. Implica simplesmente que não é igual. Nunca seria. É uma constatação, não um juízo de valores.
Retomando, lembra de Heráclito de Éfeso? Filósofo clássico famoso por ter afirmado que um homem não pode atravessar duas vezes um mesmo rio? Pois então. Por mais que não se possa atravessar um mesmo rio mais de uma vez, atravessá-lo torna-nos um tantinho mais traquejados para atravessar outros rios. A gente aprende como se portar, mais ou menos o que normalmente funciona na travessia dum curso d’água. As experiências não se repetem, mas guardam um denominador comum que podemos fazer uso.
É assim com tudo na vida, é assim com as amizades. Um sujeito com muitos amigos tem, certamente, mais facilidade para fazer novos do que um sujeito muito recluso.
Todos os meus novos relacionamentos, todos os relacionamentos velhos que já retomei, dão-me esperança para agora retomar um outro, que foi tão significativo a seu tempo (e continua sendo, pois é presente na ausência). Atravessei muitos outros rios da quarta série pra cá, vou atravessar ainda inúmeros outros, espero. Mas é importante voltar e atravessar de novo aquele outro, lá do início da caminhada. Tomar de novo dele as águas e as energias.
Amizade (de verdade) é isso: é energia líquida, é tônico para segurar as barras da vida. Pode não ser a panacéia universal, mas tudo fica muito mais difícil pra quem não lhe bebe das águas.
Estes dias, tive muita sorte de poder beber das águas mais frescas que se podia achar. E melhor, tive sorte de poder mesmo encher o cantil.
A vida segue, e o sol não põe mais tanto medo.
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Este post é um agradecimento, sincero, emocionado, aos meus amigos. Aos que revi nestes dias, aos que não pude rever. Aos que recebi notícias, àqueles dos quais não sei muita coisa há muito tempo. A todas essas pessoas que, de uma forma ou de outra, seja numa postagem de blog, seja num convite que não pude aceitar, numa ligação que não pude atender, se fazem presentes na minha vida. Muito obrigado.
E eu nem acho que mereço.

Ética? Reflexões sobre a atuação do psicólogo clínico [ATUALIZADO]

Postado em A desculpa é política, Brasil, Pense nisso, problemas, Psicologia, Reflexões em 8 outubro, 2009 por Lucas Ed.

Ontem, antes de um acidente me fazer voltar para casa, minha professora de “Teorias e Técnicas Psicoterápicas” iniciou uma discussão com a turma sobre o que uma pessoa deveria ter para ser um psicoterapeuta. Imbuída de um monte de coisas que, de tão repetidas já se tornaram chavões irrefletidos (sensibilidade, empatia, capacidade de “ouvir”), a conversa avançava morosa até que alguém lembrou do aporte teórico. Todo mundo concordou, ainda que com algum burburinho, e a conversa continuou. Mas já estava instaurado um grande incômodo em mim.

E ele dizia do seguinte: qual o nosso critério para julgar se alguém é um bom psicoterapeuta ou não? Um colega citou Contardo Calligaris, famoso psicanalista italiano radicado brasileiro que, em seu livro “Cartas a um jovem terapeuta” (2004) termina dizendo que a preocupação em ser um bom terapeuta já é meio caminho andado para sê-lo. A frase é bonita, mas mais poética do que prática. O mero desejo de ser bom não faz de alguém bom. Num caso real, citei a terapeuta carioca Rozângela Alves Justino, que foi assunto recentemente porque ia ser julgada pelo Conselho Federal de Psicologia por afirmar “curar a homossexualidade“. Porque citei essa infame colega? Porque, em nenhum momento, eu acredito que a Srª Rozângela aja de forma maquiavélica do tipo que diz: “Vou afirmar que curo a homossexulidade e encher os bolsos de dinheiro com os palermas que aparecerem“. Tenho com muita clareza que também ela, assim como os seus clientes/pacientes, acredita “de coração” numa cura. E trabalha em prol dela, de melhorá-la, de torná-la mais eficiente. E aí, Dr. Calligaris? No mesmo balaio da citada terapeuta, entram todos aqueles que fazem do setting terapêutico local de prática do reiki, dos florais de Bach, da acupultura² e de outras práticas que nada tem a ver com o saber psicológico (mesmo que algumas sejam sérias e válidas).
Tampouco o aporte teórico pode tornar-se critério de verificação da qualidade de um profissional. Por dois motivos: primeiro, toda a academia conhece dúzias, dezenas e centenas de casos de grandes acadêmicos (e, portanto, conhecedores da teoria) e que são péssimos terapeutas. Não nasceram pra isso, não têm o traquejo básico, inicial e necessário para o ofício. Nada de mal nisso. Ao mesmo tempo, o que mais existe por aí são teorias. Mesmo a infame Rozângela encontraria respaldo nos escritos freudianos, por exemplo, para perpetuar sua prática. Golpe de misericórdia, alguém citou a “satisfação” dos clientes. Acredito que um terapeuta, por pior que efetivamente seja, se tem ali à sua frente uma quantidade considerável de clientes/pacientes, algo de bom sua prática deve produzir nos que o procuram. A própria Rozângela ergue em sua defesa considerável número de ex-clientes (e “ex-gays”) satisfeitíssimos com os resultados que obtiveram, e que lhe indicam os amigos, os amigos dos amigos que porventura sofram do mesmo “mal”.
Deste ponto em diante não pude continuar. Alguém lá fez um comentário que mudou todo o rumo da conversa, e tenho a nítida impressão que soou como se eu estivesse defendendo que, na ausência de critérios verificáveis, então tudo é válido desde que o cliente saia satisfeito.
A verdade é que meu ponto representava simetricamente o oposto disso.
Pra mim, a ausência de um critério válido e palpável na Psicologia, sobretudo no país, é assunto da mais grave importância. Mas quem teria o direito de estabelecer esse critério? Oras, quem mais senão os próprios psicólogos, através de seu órgão de classe, o Conselho Federal de Psicologia? Oras, se o CFP não reunir em si as atribuições de representar, disciplinar e fiscalizar a prática da psicologia, quem mais o fará? A OAB?
Mas aí é que está o nó: na ânsia de abarcar (e validar) práticas tão, mas tão distintas que chegam a ser contraditórias¹, o CFP acaba, com o perdão do mal termo, “abrindo as pernas”, fica difícil dizer agora o que pode e o que não pode porque… bem, faltam critérios! Ao mesmo tempo, na melhor tradição do “homem cordial” proposto por Sérgio Buarque de Holanda, o CFP parece ter medo de morder hoje a mão que pode vir a lhe alimentar amanhã. Pra mim, prova inconteste disto é que, apesar de contrariar publicamente uma norma do CFP que já conta com dez anos de existência (é proibido afirmar que homossexualidade é doença), Rozângela Justino recebeu uma punição tão branda que chega mesmo a ser uma premiação.
A meu ver, cabia ao CFP instaurar normas rígidas e fazê-las valer. Delimitar exatamente o que pode e o que não pode ser feito. Sim, isso já existe. Mas há uma máxima do Direito que diz que a norma sem sanção não existe. Ou seja: se não existe punição, a lei perde a força e não pega. Rozângela e outras tantas por aí continuarão curando gays, lendo o tarô e jogando os búzios dentro do setting se o máximo que lhes pode ocorrer for uma censura pública. Ao mesmo tempo, as novidades, as inovações devem ser profundamente estudas quanto à sua eficácia e validade ética antes de serem autorizadas e incorporadas. Foi assim na duplinha Medicina/Acupultura, por exemplo. O exato oposto aconteceu com a Psicologia e a Terapia pela Internet, validada pelo CFP antes da existência de estudos conclusivos sobre o tema.
Mas ao mesmo tempo há outro ponto, e eu não sou ingênuo à ponto de descolar o órgão representativo de seus representados, e dizer que toda a responsabilidade cabe aos primeiros (acorda Brasil! Isso vale pra política também, viu?). Porque o que se vê por aí, entre meus futuros colegas de profissão é uma camaradagem vergonhosa, que, diante do incorreto, segue aquela máxima que o ator Carlos Nunes, meu conhecido, sempre repete: “Se você gostou, recomende. Se não, então não fala nada pra ninguém pode ser?” Pois é isto que a maioria dos terapeutas (aquela minha professora do início inclusa) preferem fazer: recomendam aos conhecidos aquele excelente terapeuta e simplesmente ignoram ou reclamam entre si (“mas o nome não vem ao caso”) dos maus profissionais. Confundem (ah, esses homens cordiais…) um profissional incompetente (que deveríamos mesmo apenas deixar de lado), com um profissional que beira o criminoso (cura os homossexuais, utiliza reiki na terapia, dá passe e traz de volta a pessoa amada em sete dias). Será que todos temos nossos rabos tão presos assim, nossos telhados são mesmo de vidro?
Porque pra mim, pode soar ditatorial, mas a classe só será reconhecida e levada a sério quando se levar a sério.
A opção é continuarmos vivendo nessa Terra do tudo-pode, vendo as Rozângela’s Justino e os Antônio’s Roberto da vida se multiplicarem por aí, ocupando o locus que deveria ser ocupado por profissionais da psicologia sérios e competentes…
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Notas
¹ Tomo como exemplo, sem qualquer juízo de valor, as práticas clínicas de rogerianos e comportamentalistas, por exemplo. Aos discípulos de Carl Rogers, as práticas da clínica behavioristas, diretivas e precisas soam antiéticas, desconsideram a singularidade e a capacidade de autoregulamentação do sujeito que ali se apresenta. Ao mesmo tempo, a aceitação incondicional da pessoa proposta pelos rogerianos certamente soa como enganação e irresponsabilidade aos ouvidos dos seguidores das propostas de F. B. Skinner.
[ATUALIZAÇÃO]
² Passeando pelo site do CFP, localizei que o uso da acupuntura por psicólogos é autorizada pelo Conselho, desde de que, naturalmente, o praticante tenha formação para tal.

[Pensando em quadrinhos] A trilogia do Infinito e a vida

Postado em Eu escrevo, HQ, Luto, Reflexões, relacionamentos em 29 setembro, 2009 por Lucas Ed.
Quando era moleque, um dia me caiu nas mãos uma minissérie em três partes chamada “Desafio Infinito”. Obra da Editora Marvel pelas mãos do (então) expert em histórias cósmicas Jim Starlin, àquela minissérie se seguiram outras duas, chamadas, em ordem cronológica, “Guerra Infinita” e “Cruzada Infinita”. Juntas, as três obras formaram a pouco lembrada “Trilogia do Infinito”, e contavam a saga do titã louco Thanos e seu amor pela Morte e os esforços dos heróis em detê-lo (e depois, em deter as consequências das suas declarações de amor.

Mas a verdade é que, colocada de lado toda a questão cósmica e fantástica, algo se pode aprender dessa série, algo relevante para a vida. É disso que quero falar.

Como disse anteriormente, a primeira fase da “Trilogia do Infinito” chama-se “Desafio Infinito”. Nela, ficamos sabendo do amor (amor mesmo) de Thanos pela Morte e do seu plano para conquistar a atenção e o amor de sua amada: matar metade da população do Universo. Para executar tão hercúlea tarefa, ele precisa reunir as seis Jóias do Infinito (Espaço, Mente, Alma, Realidade, Tempo e Poder), artefatos poderosíssimos que, juntos, tornam o portador onipotente. Durante a trama, Thanos consegue alcançar seus objetivos: une as Jóias na chamada “Manopla do Infinito” e, com elas, dissipa metade da população do Universo. Isso faz com que os heróis da Terra sobreviventes, bem como os campeões de outros mundos (como o Starfox, irmão de Thanos, ou Adam Warlock) se empenhem em deter o vilão e reorganizar tudo.
Naturalmente, depois das mais dramáticas batalhas, os heróis, tendo sido ajudados pelo acaso (a traição da neta de Thanos, Nebula), conseguem se apossar da Manopla e, em poder de Adam Warlock, ele a usa para consertar o caos gerado pelo titã louco, que acaba exilado.
Para evitar que tamanho caos se repita, Warlock toma duas decisões: primeiro, desfaz a manopla, e distribui as Jóias entre um grupo intergalático conhecido como “Guarda do Infinito”, ficando cada membro com uma jóia (Gamora com a jóia do Tempo; Pip com a jóia do Espaço; Drax, o destruidor, com a jóia do Poder; Serpente da Lua com a jóia da Mente e o próprio Warlock com a jóia da Alma. A última jóia, da Realidade, foi entregue a um sexto e secreto membro, para que não fosse retomada). Já na segunda decisão, Warlock decide expurgar de si todo o bem e todo o mal, restando a plena neutralidade. Das duas decisões, esta é a que acarretará os maiores danos.
Pois então, ao “Desafio Infinito” se seguiu a “Guerra Infinita”. Nela, vários heróis e vilões começam a ser atacadados por clones deturpados e malignos de si mesmos, as “contrapartes” (a mais famosa é a do Aranha, com seis braços e duas pernas). Inclusive Thanos (que vivia uma vida de fazendeiro no exílio pós-Desafio).
A verdade é que a parte má de Warlock, chamada Magus, intentava contra o universo, e só a improvável união dos heróis, da Guarda do Infinito e de Thanos poderia (e fatalmente conseguiu) vencê-lo.
Como se trata de uma trilogia, a terceira parte é um tanto óbvia: trata do embate dos heróis contra o lado bom de Warlock, chamada Deusa. Mas peraí: porque os heróis enfrentariam a parte boa de Warlock ainda se achando certos?
Em “Cruzada Infinita” descobrimos que a bondade de Warlock se personificou na Deusa que, criando o Ovo Cósmico (uma arma de poder imenso, quase equivalente à Manopla do Infinito) e convocando para seu exército todos os heróis que tinham alguma relação com o divino (Tempestade dos X-men e Thor, por exemplo) pretendia expurgar todo o mal do universo, iniciando uma verdadeira cruzada.
O problema, conforme descobrem os heróis sob o comando de Warlock, é que ao fazer isso a Deusa dizimaria toda a realidade. Era preciso evitá-la, claro.
Provavelmente (ou melhor, muito provavelmente) o que vou falar agora passe longe de ser o objetivo de Jim Starlin quando escreveu “A Trilogia do Infinito”, mas o que é uma obra senão um suporte para múltiplas interpretações?
Diferente da primeira minissérie, as continuações (“Guerra” e “Cruzada” que são a mesma coisa em termos, com a diferença que a cruzada é uma guerra que se supõe santa) deixam de lado o niilismo de Thanos e seu amor impossível para se focarem no drama de Warlock, tendo de arcar com a decisão mais errada de sua vida, ainda que não menos bem intencionada. Onipontente, ao expurgar de si o bem e o mal, Adam esperava ter clareza em todas as decisões que, como Guardião da Jóia da Alma, teria de tomar dali em diante.
Mas a pergunta é: retirada a essência dual do homem, o que sobra? E mais, descompensada pelo reflexo invertido, o bem ainda é bom e o mal ainda é mau?
Assunto tangente no grande arco de Starlin, a conclusão que se chega é que, mesmo um sujeito que é considerado o homem perfeito (assim Warlock, que já se chamou simplesmente “Ele”, é descrito) não pode existir de forma neutra. Afinal de contas, uma neutralidade humana (ou super humana) é impossível pois destrói a base: neutralizado, o homem se desumaniza. Vira uma pedra ou um metal, qualquer coisa que não um homem.
Esse dilema já estava presente lá nos estudos de Husserl, lá nos meados do século XIX, já apontavam: pode-se procurar (e imprimir) neutralidade em tudo, desde que o homem não esteja no meio. Perceba que Husserl, ao fundar sua fenomenologia, não pregava a dualidade bem/mal no homem (isso é coisa do Jung), mas a não neutralidade. Toda consciência escolhe, impõe significado próprio, altera e modifica. O mundo só pode ser neutro se não estivermos nele ou se considerarmos que, parte do mundo, nossa capacidade de “desneutralizar” as coisas é tão natural que só considerando-a é que podemos chegar a um estado “neutro”.
Ao isolar o bem e o mal, Adam Warlock queria sempre decidir pelo “certo”. Sem a noção de “errado” (provavelmente oriunda do bem e do mal conforme o cria) é possível ter certeza do certo?
Pode ser que você pense toda essa discussão como inútil, por dois motivos: o primeiro, porque Adam Warlock é um personagem ficcional. Segundo porque, mesmo sendo ficcional, ele sequer é humano!
Bem, para a primeira questão, vou sim a Carl Gustav Jung e Joseph Campbell, este especialista em mitologia.
Na opinião de ambos, um mito, uma história ficcional, fantástica e que encerra em si uma explicação para algo do mundo, serve também como tradutora de um conflito humano. Algo indiretamente indizível pode ser traduzido, representado num mito.
Sim, você não é bobo e percebeu que eu vou tomar a série de Jim Starlin como um mito. Sendo um, que questão humana ele encerra em si?
Justamente a dualidade bem e mal. Quem não se angustia quando, querendo fazer o bem, acaba causando o mal? Ou, quando se percebe desejando realmente o mal a outrem? Quem não desejou conseguir ser simplesmente justo? Quem nunca quis para si a neutralidade plena?
Jim Starlin encerra o caráter mítico de seu trabalho justamente ao colocar essas dúvidas no coração de Adam Warlock. Se no “Desafio…” Thanos fez tudo o que fez apenas por uma paixão, por amor, Warlock não quer repetir nada disso e se desumaniza¹.
Engraçado é que essa desumanização inverte as posições: nas séries subsequentes ao “Desafio…”, Thanos (que conservara sua humanidade) deixa de ser o vilão e, redimido, é peça fundamental para o sucesso dos heróis (inclusive, é ele o depositário secreto da Jóia da Realidade), enquanto que o todo o problema foi gerado pelo próprio (e deseumanizado) Adam Warlock! E, ironia das ironias, Jim Starlin põe essa coisa não humana que Adam Warlock se tornou pra cuidar de qual jóia? A da Alma, oras!

Mas vamos inverter um pouco as posições. Quem nunca se percebeu querendo “corrigir” os defeitos de alguém? Lhe retirar o mau e usufruir apenas do que há de bom a se oferecer? Quantas vezes a gente não quis isso de nós mesmos?
O problema é que o ser humano, como disse Sartre, é um todo, e não uma coleção. Não se pode tirar uma parte ou outra, nem acrescentar nada. Cada sujeito é uma pessoa completa e bem acabada, seja nos defeitos ou nas qualidades.
Daí, pra se viver com uma pessoa, é preciso aceitar o “pacote completo”: numa visão bem mercadológica, é preciso aceitar os defeitos (o mal) como sendo um preço a ser pago em prol das qualidades (o bem), sabendo que, sem essas coisas, não teríamos uma pessoa.
Teríamos uma pedra ou um metal.
E quem quer conviver com uma pedra ou um metal?
Nem Adam Warlock quis…

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Notas
¹ Se você ficou confuso com o salto do bem e do mal para as paixões próprias, explico melhor: quando expeliu de si o bem (a Deusa) e o mal (Magus) é preciso pensar a quem serviam este bem e mal. Ele expeliu o desejo de fazer o bem a quem? Fazer o mal a serviço de quem? Não ao mundo, ou ao universo. Se pensamos que ao expelir as duas entidades, Warlock esperava agir com justiça (e justiça pressupõe, de início, coletividade – todos sujeitos às mesmas leis e critérios), só podemos crer que o bem expurgado era o bem a ele, Warlock, assim como o mal expulso estava também a seu serviço! Não existe o absoluto bem nem o absoluto mal. Nem o Deus judaico/cristão é plenamente bem: até ele tem um “povo eleito”…

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